Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

GH - mitos e verdades

Paulo Gentil

01/06/2002


Todos sabem dos supostos atributos do Hormnio do Crescimento (GH). Basta abrir qualquer revistinha e ler a lista. Mas, afinal de contas, o que realmente comprovado sobre o GH? Ser que os achados cientficos apiam a bajulao em torno desse hormnio? E (a pergunta de sempre) ser que vale a pena pagar o preo?

Antes de iniciarmos o estudo, recomendo cuidado na interpretao das pesquisas, pois sabemos que o hormnio do crescimento pode levar a mudanas em diversos tecidos, incluindo muscular, articular e sseo. Quando se verifica um aumento na massa magra, significa que houve aumento em algum dos componentes do seu corpo que no sejam gordura, portanto aumento de massa magra no significa necessariamente aumento de massa muscular. Quanto a esse equvoco (talvez propositalmente induzido pela industrias farmacuticas) o mdico MICHAEL MOONEY, respeitada autoridade em preservao muscular e HIV, desafiou uma empresa produtora de GH: com a seguinte declarao:

"Ressalto que o nico estudo de Serotostim (nome comercial do GH da empresa) que incluiu uma avaliao crtica das mudanas no tecido muscular usando MRI (ressonncia magntica) no mostrou nenhuma alterao. Todos os demais usaram anlise de impedncia bioeltrica, a qual mede a massa corporal magra, mas no pode medir com segurana as mudanas musculares. Na Terceira Conferncia Internacional de Nutrio e Infeco por HIV, em Cannes, Frana, abril de 1999, Donald Kotler, mdico de St. Lukes-Roosevelt Medical Center de Nova York, reportou os resultados de um estudo de 6 meses com o hormnio do crescimento Serotostim. Os resultados do Dr. Kotler mostraram que 6 mg de Serostim por dia no promoveram aumento significativo no tecido muscular durante as doze semanas em que os dados de repetidas MRI de oito pacientes estavam disponveis. Muitos outros estudos com diversas populaes HIV-negativas tambm no mostraram melhoras aparentes no tecido muscular"

Tendo essa observao em mente, prosseguimos com o tema. A partir de 1985, com a facilidade de se obter o GH sinteticamente atravs da recombinao do DNA humano, cientistas do mundo todo dedicaram inmeras pesquisas ao uso teraputico deste peptdeo, principalmente em idosos e HIV-positivos.

HIV-positivos

Inicialmente os experimentos foram direcionados a pacientes debilitados. Nessa linha, SCHAMBELAN et al (1996) avaliaram os efeitos, no longo prazo, do tratamento com hormnio do crescimento no peso, composio corporal e performance funcional de HIV-positivos. O grupo experimental recebeu 0,1 mg/kg/dia durante doze semanas, e o outro grupo recebia placebo. O tratamento com hormnio do crescimento ocasionou ganho de peso e massa magra, com diminuio na massa de gordura, ao contrrio do grupo controle, que no teve diferenas relevantes nos resultados.

Como o tratamento prolongado de hormnio do crescimento sai muito dispendioso, PATON et al (1999) direcionaram um experimento ao uso de GH coincidindo com a presena de infeces oportunistas durante duas semanas, visando atenuar a perda de massa muscular em HIV-positivos. Nos pacientes tratados com GH, o catabolismo se mostrou 60% menor, com aumento mdio de 2,2kg na massa magra e diminuio de 0,7 kg de gordura. Os autores apresentam esse tipo de interveno como relativamente segura e eficiente, com um menor custo financeiro, visto que a terapia s realizada em perodos curtos.

Mas nem todos os resultados foram positivos, um estudo de 1996 tratou pacientes em estados catablicos crnicos com as formas recombinadas de GH (1,4mg/dia) e IGF-1 (5 mg 2 vezes por dia), ou ambos. Todos os grupos tiveram aumento na massa magra e diminuio na massa de gordura, porm os ganhos foram muito inconstantes e instveis, levando concluso de que as drogas e doses testadas no so recomendadas (WATERS et al, 1996). Mais um estudo nessa linha o de MOONEY (1999), no qual se usou cerca de 6 mg/dia de GH em pacientes portadores do vrus HIV. Ao final das doze semanas no houve mudanas positivas na musculatura esqueltica. Com base em concluses similares WELLE, (1998), afirma que os efeitos anablicos do tratamento com GH no longo prazo no justificam a abundante terapia de reposio hormonal.

Idosos

Os idosos so um grupo, no qual os efeitos do GH foram bastante estudados. Como em 1999, quando KIM et al observaram os efeitos lipolticos e anablicos do tratamento com hormnio do crescimento mesmo com restrio calrica. Os pesquisadores tambm analisaram as mudanas na secreo de insulina e GH. Juntamente com uma dieta de 25 kcal/kg e 1,2 g/kg de protena por dia, os pacientes recebiam hormnio do crescimento ou placebo. As injees de hormnio do crescimento aumentaram as quantidades de IGF-1 e induziram a perda de gordura visceral, sem ocasionar alteraes na liberao de insulina durante o teste de tolerncia a glicose. O grupo experimental, tratado com GH, obteve perda de peso 1,6 vezes maior e manteve a massa magra, enquanto o grupo controle perdeu uma mdia de 2,62 kg de massa magra, apresentando balano nitrogenado negativo.

Vimos na primeira parte do texto o possvel funcionamento do eixo GH/IGF-1, cuja importncia muito comentada nas adaptaes ao treino de fora. Para estudar o tema, TAAFFE et al (1994) realizaram um estudo no qual os pacientes praticavam musculao por 24 semanas, recebendo GH humano recombinado (0,02 mg/kg/dia) ou placebo durante as dez ltimas semanas de treinamento. Foram medidas a fora mxima, composio corporal e nveis sricos de IGF-1. Inicialmente, as quantidades circulantes de IGF-1 eram baixas nos dois grupos (106 mcg/L, aproximadamente metade do correspondente a jovens saudveis). Com o tratamento de GH, houve aumento de cerca de 100% na quantidade de IGF-1 srico, ao contrrio do grupo controle (218mcg/L contra 119mcg/L), porm isto no se refletiu em influncias positivas na fora. Apesar da diminuio da massa de gordura e aumento na massa magra nos pacientes tratados com GH, no houve aumento significativo na fora.

O mesmo TAAFE publicou outro estudo sobre o tema usando idosos em sua amostra e concluiu que o uso do GH (0,02mg/kg/dia) no provoca aumento na hipertrofia muscular, indo contra a hiptese de que a deficincia no eixo GH-IGF seja causadora de menores respostas ao treinamento em idosos. (TAAFFE et al, 1996).

Esses resultados seguiram sendo confirmados por YARASHESKI et al (1995), os quais apontam que o treinamento com pesos aumenta a fora e o anabolismo em idosos, porm no h influncias positivas do GH nesses parmetros, levando os pesquisadores concluso que os ganhos de massa magra possivelmente so advindos de aumento das protenas no-contrteis e reteno de fludos. A pesquisa liderada por YARASHESKI durou dezesseis semanas, incluindo musculao (4 x semana) e doses dirias de 12,5 a 14 mcg/kg/dia de GH ou placebo. O interessante que a administrao do hormnio causou tanto aumento no anabolismo, quanto no catabolismo protico, com os ganhos de fora e valores lquidos de sntese protica sendo similares em ambos os grupos.


O mesmo YARASHESKI participou em 1997 de outra pesquisa desanimadora para os fs do GH. Dessa vez, foi questionada a relao do tratamento com GH (12,5 a 18 mU/kg/dia) na densidade ssea. Nesse estudo de dezesseis semanas, aliou-se a administrao de GH a exerccios fsicos. As variveis medidas foram: composio corporal, densidade ssea e nveis sricos de IGF-1. Tanto o grupo que recebeu, quanto o que no recebeu hormnio do crescimento aumentaram de maneira similar a massa magra, apesar de o grupo experimental ter maiores aumentos nos nveis sricos de IGF-1 aps o treino. As melhoras na densidade ssea foram semelhantes em ambos os grupos, sugerindo maior turnover sseo, sem acmulo de mineral.

Um estudo publicado em fevereiro de 2002, praticamente concluiu a discusso sobre o tema. LANGE et al (2002) utilizaram modernos mecanismos (DEXA, ressonncia magntica, aparelhos isocinticos) para detectar as alteraes promovidas pelo uso de GH em pacientes idosos ao final de doze semanas de tratamento. A amostra foi dividida em quatro grupos: treinamento de fora; treinamento de fora + GH; GH e controle. Novamente, foram detectadas elevaes significativas na concentrao srica de IGF-1, reduo da massa gorda e aumento da massa magra. No entanto, o hormnio no trouxe vantagens no ganho de fora nem hipertrofia. O fato mais significativo desse estudo foi ter verificado as alteraes na seco transversa do msculo esqueltico atravs da ressonncia magntica, confirmando que o uso de GH no favorece de maneira significativa o ganho de massa muscular, independente de ser utilizado isoladamente ou concomitante ao treino de fora (LANGE et al, 2002).

Jovens

Mesmo em pacientes jovens com deficincia de GH, o uso desse hormnio, nem o de IGF-1 causaram aumentos na fora. Apesar de ocorrer aumento na massa magra e reduo do percentual de gordura em ambos os casos, o tratamento com GH provocou a maior perda de lipdios, alm de diminuio na oxidao de carboidratos e aumento das concentraes de glicose indicando resistncia sbita insulina. Nem o IGF-1 nem o GH afetaram os fluxos de clcio, confirmando a hiptese de que nenhum deles piv no metabolismo sseo desse mineral (MAURAS et al, 2000).

O simples fato do uso do GH ser questionvel para promover aumento de massa muscular em pacientes debilitados j seria suficiente para desencorajar o uso desse hormnio em indivduos saudveis, pois se a interveno no capaz de aumenta massa muscular em estados catablicos extremos, que dir em organismos normais!!! Ainda assim, interessante ressaltar evidncias diretas como estudos de YARASHESKI et al, (1992); YARASHESKI et al, (1993) e DEYSSIG, et al, (1998).

YARASHESKI et al (1992) realizaram um experimento para avaliar o efeito do tratamento de GH (40 mcg/kg/dia) no anabolismo muscular associado ao treinamento com pesos durante doze semanas. Ao final do estudo, os autores concluram que o ganho de massa magra proveniente do tratamento com GH principalmente devido ao aumento de outros tecidos, que no muscular, portanto o uso deste hormnio no aumenta o anabolismo muscular resultante do treinamento com pesos. O mesmo YARASHESKI, juntamente com outros autores, publicou outra pesquisa no ano seguinte com o mesmo objetivo: avaliar a influncia do GH (40 mcg/kg/dia) no anabolismo muscular, s que agora foram verificados os efeitos agudos (14 dias) em levantadores de peso experientes. Novamente os valores de IGF-1 aumentaram (224 para 589 ng/ml) e mais uma vez no houve influncia positiva no anabolismo.

O estudo de DEYSSIG foi feito em atletas (0,09 UI/kg;dia), e os autores tiveram o valioso cuidado de controlar o uso de esterides anablicos. O GH elevou as concentraes sricas do prprio hormnio, de IGF-1 e da protena transportadora de IGF-1, alm de aumentar a taxa de insulina em jejum e diminuir a de tiroxina. Porm, no houve ganho de fora nem melhora na composio corporal, concluindo-se que os efeitos anablicos e lipolticos do tratamento com GH podem depender da massa gorda e da deficincia na produo desse hormnio, sendo ineficiente no caso de jovens saudveis.

Consideraes finais

Apesar de toda propaganda exaltando o GH, no existem justificativas para o uso esttico desse hormnio. incompreensvel que a mdia e demais pessoas propaguem tais idias sobre uma substncia ineficiente, e demonizem outros hormnios como os derivados da testosterona. A verdade que o tratamento a base de esterides anablicos, parece ser to, ou mais eficiente e seguro que a terapia com GH, alm claro, da inegvel vantagem econmica.

O eventual aumento de massa magra relacionado ao uso de GH pouco tem a ver com hipertrofia do tecido muscular. Em estudos cientficos, o efeito verificado com mais freqncia a reduo no tecido adiposo, no campo prtico h alguns relatos isolados de melhora na pele e cabelo. Dessa forma, a maioria dos ganhos provenientes da terapia de GH podem ser obtidos com facilidade atravs de prticas alternativas, as quais dificilmente chegaro s cifras gastas com o GH. Outro aspecto a se ressaltar a freqente insignificncia dos ganhos de fora, indicando que no houve aumento nas protenas contrteis. Independente das alteraes morfolgicas, o simples fato de o aumento de massa magra no acarretar melhoras funcionais no aparelho locomotor um aspecto negativo, pois a melhora funcional deveria ser um aspecto importante de qualquer terapia ou treinamento fsico, mesmo com fins estticos.

Reconheo que, para variar, minhas opinies esto indo contra a corrente atual de pensamento, porm no tenho nenhuma obrigao em agradar a mdia e nunca gostei de seguir cegamente dogmas.Antes, prefiro analisar criticamente o assunto, formar uma opinio concreta e compartilh-la com vocs, doa a quem doer.

Referencias Bibliogrficas

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