Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Lipoaspirao ontem, hoje e perspectivas

Isaac Furtado

09/02/2002

Isaac Furtado cirurgio plstico (http://www.isaacfurtado.med.br), membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plstica e da Associao dos ex-alunos do professor Ivo Pitanguy

Ontem.

A tentativa de harmonizao do corpo com o esprito o objetivo transcendente da cirurgia plstica. Visando restabelecer o equilbrio interno, permitindo ao paciente reestruturar-se e reencontrar-se consigo e com o universo que o cerca (1). No entanto, alm das limitaes anatmicas e das particularidades de cada um, o resultado pode ser alterado. E a interpretao final da cirurgia pode ser muito benfica para o paciente, ou por melhor que seja executada, jamais trar satisfao ao mesmo (1,2). 

Antes da lipoaspirao, o tratamento da gordura excedente era feito por Dermolipectomias (3) ou precariamente por curetagens atravs de tesouras longas, principalmente na regio dos culotes, onde o contedo era drenado por compresso externa (4). 

A tcnica da lipoaspirao foi introduzida na Frana por Yves-Gerrd Yllouz, em 1977 (5). Ylous introduziu a primeira cnula acoplada a um aspirador, que com movimentos de vai e vem na gordura, o tecido era curetado e aspirado pela presso negativa. Inicialmente, era injetada uma soluo com soro fisiolgico, adrenalina, hialuronidase e xylocaina, com a finalidade anestsica e para diminuir o sangramento, era denominada de tcnica infiltrativa. Outros autores preferiam o mtodo seco, sem infiltrao prvia.

Em novembro de 1980, em Fortaleza, era lanada a lipoaspirao no Brasil, por ocasio do Congresso Brasileiro de Cirurgia Plstica (6). A tcnica foi muito criticada no incio, pois poucos tinham experincia e os resultados ainda eram pobres. Com experincia adquirida, os locais de melhor resultado foram sendo escolhidos, foi iniciado uma compresso externa com cintas e a anestesia aperfeioada. Com o passar do tempo, houve uma grande mudana com as cnulas, que ficaram mais finas, com orifcios mais eficientes e com melhor acabamento. Os Lipoaspiradores tornaram-se mais potentes e a indicao clnica mais precisa (7,8).

Hoje.

A lipoaspirao j se consagrou como a maior revoluo da cirurgia plstica, sendo o procedimento cirrgico mais realizado na especialidade. H vinte anos, no era bem vista pela maioria dos cirurgies, pois no era possvel prever como esta tcnica iria mudar os resultados do tratamento do contorno corporal. Vrias tcnicas de aspirao so utilizadas hoje, no entanto, o princpio continua o mesmo. Existe a Lipoaspirao com Seringa, com Ultra-som, a Fibro-lipoaspirao e com auxlio do Laser. Pode ser feita na gordura superficial, na camada areolar, como refinamento de algumas reas, com muito cuidado para no deixar irregularidades. Normalmente, mais realizada na gordura profunda, camada lamelar, onde so feitos os tneis e retirado o maior volume de gordura (9). A Lipoaspirao tambm foi ampliada com a possibilidade de reintroduo da gordura como enxerto, sendo denominada de Lipoescultura. Para que haja um bom resultado a gordura deve ser manipulada o mnimo possvel, isolada do sangue com soro fisiolgico e reintroduzida em pequenas quantidades, devido ao risco de infeco e esteatonecrose (2). 

As regies do abdome, flancos e culotes so as mais beneficiadas com a lipoaspirao. Podendo tambm, ser feita nos joelhos e coxas internas, no dorso, nas laterais dos braos e no pescoo (sub-mento).

A avaliao laboratorial prvia fundamental, principalmente, com relao aos ndices hematimtricos, pois a anemia anterior ou decorrente de mega-lipoaspiraes determinam distrbios hidro-eletrolticos ou sncopes (desmaios) freqentes. Preconiza-se a aspirao de no mximo 3 litros para uma maior segurana, pois cerca de 30% do volume aspirado de sangue. A anestesia mais utilizada a Peri-dural, sendo associada a uma sedao. Utilizamos uma infiltrao com Adrenalina para diminuir o sangramento. E optamos pelo uso do Lipoaspirador mecnico pela maior rapidez e melhor custo/benefcio, pois no vemos diferena no resultado com os outros mtodos ( Ultra-som, Fibrolipo, ou Laser). Pequenos orifcios de 8mm so feitos em locais escondidos e posteriormente suturados com fios absorvveis. Retiramos em mdia, 1 litro e meio de gordura. O paciente recebe alta hospitalar no mesmo dia, ficando em repouso por uma semana. A compresso com uma cinta elstica feita por um ms, para diminuir o edema e a formao de equimoses. Como mtodo coadjuvante no tratamento, indicamos a Drenagem Linftica aps 7 dias, por 10 a 20 sesses. E o resultado final visto em torno de 2 meses.

Recentemente, a aplicao de uma lipo-proteina, a Fosfatidilcolina, diretamente sob reas de pequena lipodistrofia tem mostrado excelentes resultados aps algumas sesses. Para maior segurana, a aplicao deve ser feita com no mximo 02 ampolas ( no total de 10mls), com intervalo de 15 dias entre as sesses. Ainda no existem trabalhos cientficos com relao aos efeitos desta liplise, a longo prazo.

Perspectivas.

Talvez a Lipoaspirao seja o tratamento mais realizado no futuro, no com fins estticos, mas teraputicos. No como tratamento de obesidade e sim como obteno de material autgeno para reconstruo de muitos tecidos. Pois, os adipcitos podem ser induzidos aps serem transformados em clulas tronco. Estas clulas tronco so foco de ateno para substrato de novos tecidos desenvolvidos com a Terapia Celular e a Engenharia Tissular (10).

A lipoaspirao uma grande fonte de clulas doadoras. Cerca de 500ml de tecido aspirado produz de 2 a 6x108 de clulas aspiradas processadas ( PLA processed lipoaspirate cells) (11). Onde a viabilidade normalmente maior que 95%. Estas clulas podem ser diferenciadas in vitro em adipcitos, condrcitos, linhagens miognicas, neurognicas e osteognicas, na presena de fatores de induo especficos (12,13).

O tecido adiposo pode ser a fonte ideal de clulas troncos, devido a sua abundancia e sua facilidade de obteno em grande quantidade. Esta tecnologia coloca os cirurgies plsticos no epicentro desta nova era mdica. O tecido adiposo representa aproximadamente 20% do peso total do homem adulto e 25% de uma mulher (14). A gordura do adipcito vem de 3 fontes: da gordura da dieta na corrente sangunea, da gordura sintetizada pelo fgado e da gordura sintetizada pela glicose dentro do adipcito. Talvez a maior fonte de clulas troncos no adulto seja a medula ssea (clulas tronco mesenquimais e hematopoiticas ) 15. Sabemos das implicaes ticas da obteno de clulas tronco embrionrias, obtidas com a clonagem humana.

O volume retirado da lipoaspirao lavado em uma soluo salina tamponada com fosfato e digerida com colagenase, aps 30 minutos inativada com soro bovino fetal e finalmente centrifugada por 10 minutos16. Estas clulas serviro de leito para tcnicas de processamento tissular, e em horas podem ser recolocadas no paciente aps a ao de fatores indutores especficos. Ainda anestesiado, o paciente pode receber, aps uma lipoaspirao pequena, uma quantidade de clulas suficientes para promover: cobertura cutnea aps queimaduras, clulas de miocrdio, estruturas cartilaginosas ou sseas para tratamento de microssomia crnio-facial e cirurgias estticas, como mamoplastia de aumento. Enfim, talvez todo tecido humano esteja ao nosso alcane, em um futuro prximo (10).

Referncias Bibliogrficas:

1.Pitanguy I, Caldeira AML. Aspectos filosficos e psicolgicos da cirurgia do contorno facial. Anais do Simpsio Brasileiro do contorno Facial, SBCP, So Paulo. 1983.
2.Pitanguy I, Caldeira AML, Almeida CC, Alexandrino A. Abdominoplastia algumas consideraes histricas, filosficas e psicossociais. Rev bras cir. 1982. 72(6): 390-402.
3.Pitanguy I. Trochanteric lipodystrophy. Plast Reconst Surg. 1964; 34:280.
4.Fischer A, Fischer GM. Revised technique for cellulitis fat. Reduction in riding breeches deformity. Bull Int Acad Cosm Surg. 1977. 2(4)
5.Illouz Y-G. Une nouvelle technique pour les lipodystrophies localises. Ver Chir Esth Franc. 1980. 6(9)
6.Avelar JM, Illouz Y-G. Lipoaspirao. Editora Hipocrates. 1986. P.28
7.Hetter GP. Optimum vacuum pressures for lipolysis. Aesth Plast Surg. 1984. 8:23.
8.D,Assuno EA. Cannula for liposuction. Plast Reconstr Surg. 1984. 74: 731-732.
9.Illouz Y-G. Lavenir de la rutilisation de la graisse aprs liposuccin. La Revue de chirurgie Esthtique de Langue Franaise, No.36 tome IX Octobre 1984
10.Ashjian PH, De Ugarte DA, Katz JA, Hedrick MH. Lipoplasty: From body contouring to tissue engineering. Aesthetic Surgery Journal. 2002, 22: 121-127.
11.Zuk PA, Zhu M, Mizumo H, et al. Multilineage cells from human adipose tissue: implications for cell-based therapies. Tissue Eng. 2001; 7: 211-228. MEDLINE.
12.Woodbbury D, Schwarz EJ, Prockop DJ, Black IB. Adult rat and human bone marrow stromal cels differentiate into neurons. J Neurosci Res. 2000; 61: 364-370.
13.Deng W, Obrocka M, Fischer I, Prockop DJ. In vitro differentiation of human marrow stromal cells into early progenitors of neural cells by conditions that increase intracellular cyclic AMP. Biochem Biophys Res Com. 2001; 282: 148-152. MEDLINE.
14.Burkitt HG, Young B, Heath JW. Supporting/connectivetissues. In: Burkitt HG, Young B, Heath JW, eds. Wheaters functional histology, 3rd ed. New Yor; 1993.p.61-75.
15.Paul SR, Yang YC, Donahue RE, Goldring S, Williams DA. Stromal cell-associated hematopoiesis: immortalization and characterization of a pimate bone marrow-derived stromal cell-line. Blood. 1991; 77: 1723-1733.
16.Katz AJ, Hedrick MH. From fat transplantation to fat engineering. Perspectives in Plastic Surger. 2000; 12: 71-82.