Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Evoluo Humana e atividade fsica

Elke Oliveira

12/07/2004

Introduo

O modelo anatmico humano apareceu h mais de 100.000 anos atrs (aa), porm o comportamento moderno do homem s foi reconhecido em registros fsseis de aproximadamente 50.000 aa.
Comparaes de DNA afirmam que a constituio gentica mudou relativamente pouco nesses 50 milnios. Mesmo com a revoluo agrcola (10.000aa) e industrial (2.000aa), a relao entre ingesto calrica, gasto energtico e necessidade de praticar atividades fsicas permanecem igual desde idade das pedras. No entanto, avanos tecnolgicos, como aparelhos que diminuem os esforos em casa e no trabalho, transportes motorizados e as atividades recreativas cada vez mais sedentrias (jogos eletrnicos, cinema, teatro, etc), reduziram a quantidade de atividade fsica a um nvel muito menor em relao ao qual o genoma humano foi selecionado.

Evoluo

Os primeiros ancestrais do Homem com incontestvel andar ereto foram os Australopitecus, que apareceram em registros fsseis no leste africano entre 4,2 e 3,9 milhes de anos atrs (maa), porm as influncias que nos fizeram humanos so mais remotas, datando de 5 a 7 maa. O andar ereto adicionou a essa espcie localizao visual de alimento, gua e predadores; minimizou a rea corporal ao sol e liberou as mos para carregar, cavar e usar armas. Esses fatores ocasionaram um impacto muito grande nas caractersticas fsicas e na performance de seus descendentes.

Os primeiros Australopitecus, os Afarensis, ainda possuam algumas caractersticas dos macacos, como os membros superiores longos, o que facilitava o acesso s arvores, comida, e lugares para descansar e obter mais segurana. Um macho adulto media 1,5m e pesava aproximadamente 45kg. Com o passar do tempo houve uma reduo significativa de plos e uma diminuio no comprimento dos braos e pernas. Essas mudanas somadas ao bipedalismo tornaram os Afarensis muito mais ativos durante o dia, com caminhada e corrida bem similares a do homem moderno.

At o momento, a busca por alimento se limitava a uma simples caminhada, porm, as florestas diminuram e surgiu uma vegetao mais seca e aberta onde os frutos passaram a florescer de forma sazonal, trazendo a necessidade de incluir outros vegetais e matria animal na dieta, o que colaborou com o desenvolvimento de mandbulas e molares massivos. Tais mudanas deram origem aos A. robustos, mas logo em seguida os Australopitecus foram extintos surgindo espcie Homo entre 2,4 e 1,5 maa. Os primeiros foram os Homo habilis, similares aos A.afarensis, porm com crebro maior. Devido s mudanas na vegetao, os H. habilis consumiam alimentos mais variados, maior quantidade de carne e foram os primeiros a fazerem ferramentas de pedras. Esses fatores resultaram em uma maior complexidade bio-comportamental e uma evoluo do crebro, que se tornou metabolicamente mais ativo.

H 1,7 maa surge a espcie Homo erectus com maiores nveis de fora e volume muscular que o homem contemporneo, pois ainda no usavam ferramentas adaptadas e/ou alavancas para facilitar os esforos fsicos. A capacidade craniana era maior que a dos seus ancestrais e os sistemas cardiorespiratrio, metablico e termo-regulatrio eram capazes de suportar altas intensidades aerbias devido s longas viagens em clima equatorial quente procura de alimentos (caavam, coletavam e carregavam).

Mais adiante, 500.000 a 400.000 aa, surge uma forma intermediria entre Homo erectus e Homo sapiens na Europa, conhecidos como homens de Neandertal. Entretanto, os modernos Homo sapiens s apareceram na frica h 100.000aa onde viveram como seus predecessores, porm sculos mais tarde a criatividade e inovao tecnolgica aumentaram a eficincia em obter alimentos, resultando na diminuio dos esforos requeridos nas atividades dirias, tornando-os menos robustos e menos ativos. Entretanto, os Cro-magnons e outros humanos modernos mantiveram atividade fsica rigorosa, continuaram a ser caadores-coletores, estilo de vida que permaneceu durante a idade da pedra (25.000aa) e ainda persiste at hoje como alguns forrageadores recentemente estudados.

Consideraes finais

Nosso metabolismo mudou muito pouco ao longo da evoluo, a relao entre ingesto calrica, gasto energtico e necessidade de atividades fsica/motoras especficas so as mesmas desde a idade das pedras. No entanto, os esforos fsicos diminuram em decorrncia de mudanas ambientais, da agricultura e industrializao. Atualmente a atividade fsica passou a ser algo extraordinrio separada da rotina das pessoas, ao contrrio de nossos ancestrais, que dependiam da atividade muscular para sua existncia. Por exemplo, para os Australopitecus, devido vegetao, era tudo mais fcil, mas era preciso caminhar para conseguirem comida. Na poca dos Homo erectus ocorreram mudanas ambientais que dificultaram a coleta, sendo necessrio incluir a caa, o que tornou a busca por alimento mais trabalhosa, eles chegavam a se deslocar 15 Km por dia. J no perodo Paleoltico (25.000 a 35.000aa), os homens caavam de 1 a 4 vezes por semana, as mulheres coletam de 2 a 3 dias alm de cuidar das crianas que chegavam a ser carregadas 1500Km nos primeiros 2 anos.

Para o homem moderno a comida est prontamente disponvel, a industrializao reduziu os esforos fsicos e as atividades de lazer tornaram-se cada vez mais inativas, contribudo para aumentar o sedentarismo, obesidade e doenas crnicas degenerativas. Para se ter uma idia, o gasto energtico do homem moderno em mdia 38% dos seus ancestrais (614kcal x 1615kcal), j o gasto energtico total aproximadamente 65% (2255kcal x 3469kcal) dos homens da idade da pedra e 44% dos caadores coletores modernos. Para um estadunidense se aproximar desse valor, seria necessrio gastar 1190kcal por dia (uma caminhada de 19 km) a mais que o habitual. Resumindo, o organismo humano no se adaptou ao estilo de vida sedentrio, o padro para o qual nosso genoma foi determinado muito mais ativo.

Bibliografia consultada:

CORDAIN. L, GOSTSHALL.RW, BOYD EATON. S, BOYD EATON III. Physical Activity, Energy Expenditure and Fitness: An Evolutionary Perspective. Int. J. Sport Med., Vol 19, pp 328-335, 1998.