Estimuladores da liberação de hormônio do crescimento - secretagogues (arginina e ornitina)
Paulo Gentil
19/07/2004

Por que usar “estimuladores de GH”?

A utilização de suplementos que aumentem a secreção natural de Hormônio do Crescimento foi iniciada há alguns anos e vem ganhando um número crescente de adeptos. No entanto, a única explicação para se utilizar estas substâncias é a desinformação.

Já está cientificamente comprovado que não há relação de causa e efeito entre os níveis de GH e os ganhos de força e massa muscular (veja mais no artigo GH – mitos e verdades), além disso, o hormônio do crescimento é extremamente pulsátil e situações simples, como ficar em apnéia, já aumentam consideravelmente seus níveis. Ou seja, a promessa de estimular a liberação de GH, por si só não tem fundamento e não consiste em algo raro ou fisiologicamente significante. Resumindo, há dois motivos básicos para não gastar dinheiro com estimuladores de GH:
1 – os níveis de GH não são fisiologicamente relacionados aos ganhos de força e massa muscular
2 – há maneiras mais baratas e fáceis de se elevar os níveis de GH

Arginina e Ornitina

A teoria do uso de arginina como suplemento provavelmente se originou em um teste clínico comumente utilizado para analisar a resposta de GH, o qual induz um aumento significativo e reprodutível nos níveis deste hormônio através da infusão de arginina. A partir deste procedimento clínico, deu-se um salto gigantesco e se passou a afirmar que o uso oral de arginina promove efeitos anabólicos.

Um dos estudos mais citados pelos vendedores de suplementos foi feito em 1982 por BESSET et al, onde se verificou que a administração de altas doses de aspartato de arginina por 5 dias resultou em um aumento significativo do pico de hormônio do crescimento durante o sono.

Em um estudo anterior, ISIDORI et al (1981) haviam verificado que a ingestão concomitante de 1200 mg de arginina e 1200 mg de lisina promovia um aumento significativo nos níveis de GH em homens jovens, no entanto, para infelicidade dos vendedores de arginina, a ingestão da mesma quantidade de arginina isoladamente não produziu efeitos significativos.

A única evidência encontrada a favor dos suplementos a base arginina e ornitina vem de um estudo de 1989, onde ELAM et al analisaram os efeitos da suplementação de arginina + ornitina (1 g/dia de cada) durante 5 semanas em homens participantes de um programa de treinamento de força e encontraram resultados favoráveis em termos de força e massa muscular durante a suplementação.

Apesar de algumas referências positivas, o acúmulo de referências posteriores mostrou que a suplementação de arginina e ornitina era ineficiente e poderia até mesmo ter efeitos deletérios na liberação de GH, além de alguns efeitos colaterais.

FOGELHOLM et al (1993) administraram, por quarto dias, um combinado de L-arginina, L-ornitina, e L-lisina (2 g/dia de cada) e analisaram os níveis de GH e insulina em levantadores de peso. Os resultados mostraram que os picos de GH e insulina eram similares com a ingestão dos suplementos ou placebo, concluindo que os aminoácidos não afetavam a variação fisiológica dos hormônios, questionando seu valor ergogênico. No mesmo ano, LAMBERT et al (1993) compararam a concentração sérica de GH em fisiculturistas durante quatro situações: 1) placebo; 2) 2,4 g arginina/lisina; 3) 1,85 g ornitina/tirosina e 4) 20 g de BovrilR. Os resultados mostram que as concentrações de GH não são alteradas por nenhum dos suplementos.

Em 1994, WALBERG-RANKIN et al analisaram os efeitos de 10 dias de suplementação de arginina (0,1 g/ kg corporal) em pessoas submetidas a uma dieta hipocalórica e um programa de treinamento de força. De acordo com os resultados, o aminoácido não promoveu melhoras na composição corporal, balanço nitrogenado, resposta de GH ou força.

Quanto à ornitina, os resultados não foram muito diferentes. Em um estudo de BUCCI et al (1990) foram testadas doses de 40, 100 e 170 mg/kg de ornitina em fisiculturistas e verificou-se que somente a dose mais alta (cerca de 14 gramas para uma pessoa de 82 quilos) produziu um aumento significativo na concentração de GH, ainda assim, a elevação foi menor que a encontrada durante o sono, levando os autores a questionarem a significância de um aumento tão pequeno e curto. Outro grave problema é que a ingestão de doses tão elevadas causou cólicas estomacais e diarréias em todos os indivíduos testados.

GATER et al (1992) avaliaram e compararam os efeitos da suplementação de arginina/lisina (132 mg/kg de massa magra), Exceed (1 lata e meia) e placebo, na composição corporal, força e níveis de IGF-1 de jovens praticantes treinamento de força. Ao final de um período de 10 semanas, os autores não encontraram diferenças nos ganhos de força, massa muscular e níveis basais de IGF-1 entre o grupo que recebeu arginina/lisina e o grupo que recebeu placebo.

Esses insucessos fizeram com que FREIDEL & MOORE (1992) fossem bem diretos ao afirmar que:
“É questionável se aminoácidos em doses toleráveis podem promover uma resposta de hormônio do crescimento, e se o aumento no hormônio do crescimento será significativo em termos de estímulo de IGF-1 ou trará qualquer benefício na composição corporal ou efeito ergogênico em pessoas normais. A conclusão razoável tirada dos dados disponíveis é os que atletas não devem gastar dinheiro algum nesses suplementos”.

É interessante ver que a ineficiência desses suplementos já foi comprovada há mais de 10 anos, mas ainda há propagandas insistindo no contrário. Mais recentemente, diversos estudos seguiram comprovando a ineficiência dos “secretagogues de GH”.

SUMINSKI et al (1997) compararam 4 situações: 1) placebo + treinamento de força; 2) arginina e lisina (1.500 mg de cada) + treinamento de força; 3) placebo e; 4) arginina e lisina (1.500 mg de cada). Os resultados não mostraram diferenças nos níveis de GH após o treinamento de força realizado com ou sem a ingestão dos aminoácidos (situações 1 e 2), mas houve aumento nos níveis basais do hormônio após a ingestão de arginina e lisina em repouso (situações 3 e 4).

Posteriormente, MARCELL et al (1999) mostraram resultados menos animadores ao usar a arginina isoladamente. Neste estudo, os autores investigaram o efeito da suplementação oral de arginina (5 gramas) em jovens e idosos, em repouso e durante treino de força. De acordo com os resultados, a suplementação de arginina não resultou em aumentos da concentração de GH em repouso e poderia, inclusive, prejudicar sua liberação durante o exercício resistido.

Novamente, em 1999, houve uma posição oficial sobre o tema. Desta vez, WILLIAMS (1999) publicou um artigo intitulado “Fatos e falácias de supostos suplementos ergogênicos de aminoácidos” onde relata que os dados indicam que a suplementação de arginina, ornitina ou lisina, separadamente ou combinadas, não aumentam o efeito do exercício sobre o GH, força ou potência.

No ano seguinte, WIDEMAN et al (2000) verificaram que a infusão de arginina não produziu melhoras na performance de um teste de 30 minutos. Apesar deste estudo mostrar que a infusão de arginina gera uma ligeira elevação de GH durante o exercício, não há nenhum estudo comprovando que isto ocorra com o uso oral dos aminoácidos.

É comum se consumir arginina, lisina e ornitina antes dos treinos de força por acreditar que isso acentuaria a liberação de GH e, supostamente, aumentar os ganhos de força e massa muscular. No entanto, a quantidade de aminoácidos a ser ingerido para que se tenha tal efeito produzem dores de estômago e diarréia. De acordo com CHROMIAK & ANTONIO (2002) não há nenhum estudo cientifico adequadamente conduzido que mostre que a suplementação oral de aminoácidos antes de treino de força seja capaz de induzir a liberação de GH, assim como não há provas que tais suplementos promovam melhores resultados em termos de força e massa muscular. A dupla de autores concluíram sua revisão de forma clara, afirmando que “o uso de aminoácidos específicos para estimular a liberação de GH por atletas não é recomendado”.

Considerações finais

É interessante ver como as empresas manipulam as informações e distorcem a ciência pra promover suplementos ineficientes e levar consumidores desavisados a gastar seu dinheiro inutilmente.

No caso dos secretagogues de GH há diversos erros. Os erros já começam na proposta, pois é muito fácil elevar transitoriamente os níveis de GH em dezenas de vezes de forma natural (apesar dos suplementos não o conseguirem), além disso, as evidências atuais são bem claras ao afirmar que, mesmo o uso de GH exógeno, é ineficiente em promover ganhos de força e massa muscular (veja mais em GH – mitos e verdades). No entanto, ainda há quem venda (e quem compre) suplementos que prometem elevar as quantidades de hormônio do crescimento.

Para completar a seqüência de erros, os suplementos nem ao menos mostram cumprir a promessa de elevar os níveis de hormônio do crescimento sem causar efeitos colaterais. Ou seja, falham ao não promover um aumento no GH e, mesmo que o conseguissem, isto não se reverteria em benefícios de força e massa muscular. Isto que dizer que: mesmo que estes suplementos “funcionassem”, eles “não funcionariam”.

Referências bibliográficas

BESSET A, BONARDET A, RONDOUIN G, DESCOMPS B, PASSOUANTE P. Increase in sleep related GH an Prl: secretion after chronic arginine aspartate administration in man. Endocrinol. Vol.99 pp:18-23, 1982.
BUCCI L, HICKISON JF, PIVARNIK JM, WOLLINSKY I, MACMAHON JC, TURNER SD. Ornithine ingestion and growth hormone release in bodybuilders. Nutr. Res. Vol.10 pp:239-245, 1990
CHROMIAK JA, ANTONIO J. Use of amino acids as growth hormone-releasing agents by athletes. Nutrition. Vol.18 n.7-8 pp:657-61, 2002.
ELAM RP, HARDIN DH, SUTTON RA, HAGEN L. Effects of arginine and ornithine on strength, lean body mass and urinary hydroxyproline in adult males. J Sports Med Phys Fitness. Vol.29 n.1 pp:52-6, 1989.
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LAMBERT IL, HEFER JA, MILLAR RP, MACFARLANE PW. Failure of commercial oral amino acid supplements to increase serum growth hormone concentrations in male body-builders. Int J Sport Nutr. Vol.3 n.3 pp:298-305, 1993
MARCELL TJ, TAAFFE DR, HAWKINS SA, TARPENNING KM, PYKA G, KOHLMEIER L, WISWELL RA, MARCUS R. Oral arginine does not stimulate basal or augment exercise-induced GH secretion in either young or old adults. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. Vol.54 n.8 pp:M395-9, 1999.
SUMINSKI RR, ROBERTSON RJ, GOSS FL, ARSLANIAN S, KANG J, DASILVA S, UTTER AC, METZ KF. Acute effect of amino acid ingestion and resistance exercise on plasma growth hormone concentration in young men. Int J Sport Nutr. Vol.7 n.1 pp:48-60, 1997.
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WIDEMAN, LAURIE, JUDY Y. WELTMAN, JAMES T. PATRIE, CYRIL Y. BOWERS, NIKI SHAH, SHANNON STORY, JOHANNES D. VELDHUIS, AND ARTHUR WELTMAN. Synergy of L-arginine and GHRP-2 stimulation of growth hormone in men and women: modulation by exercise. Am J Physiol Regulatory Integrative Comp Physiol Vol.279 pp:R1467–R1477, 2000.
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