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A quitosana é um polissacarídeo derivado da acetilação da quitina, encontrada
no exoesqueleto de crustásseos, como o carangueijo e a lagosta. Recentemente, a
quitosana tem sido vendida sob a alegação de que o composto ajudaria no
emagrecimento. Segundo os vendedores, essa fibra se ligaria aos lipídeos e
dificultaria que eles fossem absorvidos pela parede intestinal, funcionando de
modo similar ao já conhecido Xenical. Resumindo, em vez de entrar no seu corpo,
a gordura seria eliminada pelas fezes.
Dentre as alegações atribuídas ao suplemento estão a perda de gordura,
eliminação do colesterol LDL, manutenção do pH do sistema digestivo, diminuição
do apetite, etc. Apesar da quitasana ser uma fibra similar à celulose, a
alegação das propagandas é que ele tenha um efeito especial: o de atrair as
gorduras, por ter uma carga elétrica positiva. Segundo os anúncios, um grama de
quitosana teria a capacidade de atrair 8-10 gramas de gordura, graças a essa
incrível capacidade magnética para lipídeos. Seria algo como um poderoso imã de
gorduras, digamos assim. De acordo com o material publicitário, a quitosana se
transformaria em um gel ao entrar no estômago, este gel atrairia as gorduras e,
ao entrar no intestino, a quitosana deixaria de ser um gel e passaria para o
estado sólido, formando uma capa que cobriria a gordura!!
Apesar de ser difícil encontrar evidências científicas dessas incríveis
propriedades magnéticas e metamórficas da fibra em questão, estudos em ratos
mostram que a quitosana pode realmente ter um efeito benéfico, diminuindo a
quantidade de gordura acumulada durante dietas hipercalóricas, bem como
reduzindo as morbidades associadas à obesidade nesses casos (Neyrinck et al.,
2009; Zhou et al., 2008). Apesar dos animadores resultados obtidos nos pequenos
roedores, os resultados em humanos não foram significativos, conforme apontam os
resultados de Tapola et al. (2008), no qual 65 homens ingeriram até 6,75 gramas
de quitosana por dia por 8 semanas e não obtiveram melhoras nos lipídeos
sangüíneos. Em humanos, mesmo os resultados positivos não chegam a ser
animadores se analisados em termos práticos. Em um estudo publicado por
pesquisadores do Texas, por exemplo, 150 pessoas com sobrepeso foram estudadas
por 60 dias, durante os quais um grupo recebeu 3 gramas diárias de quitosana e o
outros receberam placebo. Ao final do estudo, realmente houve favorecimento da
perda de peso com o uso do suplemento, no entanto, esse favorecimento, em termos
absolutos foi de apenas cerca de 500 gramas por mês.
Uma revisão publicada na respeitada base Cochrane aponta dados interessantes. O
artigo teve como objetivo analisar os efeitos da quitosana como tratamento para
obesidade e sobrepeso em humanos. A revisão incluiu 15 artigos com um total de
1219 participantes. Uma análise inicial de todos os estudos revelou que o uso de
quitosana promoveu maior perda de peso, redução no colesterol e diminuição na
pressão arterial em comparação com o placebo, sem produzir efeitos colaterais.
No entanto, o problema é que, segundo os autores, a qualidade dos estudos era
muito ruim e, para não correr o risco de chegar a conclusões equivocadas os
autores produziram análises independentes apenas com os estudos de boa
qualidade. Nesse caso, os resultados foram outros, não tão animadores.
Analisando os estudos com uma perspectiva mais crítica, os autores concluem que,
apesar de haver evidências que a quitosana seja mais eficiente que o placebo no
tratamento da obesidade e sobrepeso em curto prazo, muitos dos estudos são de
baixa qualidade e com resultados variáveis. Por outro lado, os resultados
obtidos em estudos de melhor qualidade indicam que o efeito da quitosana na
composição corporal é mínimo e improvável de ter significância clínica (Jull et
al., 2008).
Saindo um pouco da área acadêmica, devemos ter cuidado com alguns aspectos já
citados anteriormente nos artigos “Como
somos enganados pela indústria de suplementos 1 e
2”. Alguns
pontos a serem observados são, por exemplo, tentar associar o suplemento a uma
universidade. A todo momento se exalta que este complexo foi desenvolvido no
Parque Tecnológico da Universidade Federal do Ceará. A Universidade Federal do
Ceará de fato possui um Parque de Desenvolvimento Tecnológico, o PADETEC, cujo
objetivo é ser uma incubadora de empresas de base tecnológica. No entanto, dizer
que algo foi criado em uma empresa “incubada” no parque tecnológico de uma
Universidade é algo bem diferente de dizer que a instituição acadêmica dá
respaldo a esse produto. A empresa que produz a quitosana por aqui, por exemplo,
ficou no PADETEC entre os anos 1997 e 2000, e certamente tem seus méritos no
desenvolvimento da tecnologia para obtenção da quitosana, inclusive, ganhou
prêmios por isso. Mas a tentativa dos vendedores de associar o nome da
Universidade com a quitosana é um pouco “forçação de barra”, bem como é “forçação
de barra” afirmar que o produto produza resultados significativos na composição
corporal.
Concluindo, as alegações dos vendedores de quitosana são extremamente
improváveis e os estudos sobre o suplemento indicam que ele não tem a capacidade
de produzir alterações relevantes na composição corporal nem na saúde.
Referências bibliográficas
Jull AB, Ni Mhurchu C, Bennett DA, Dunshea-Mooij CA, Rodgers A. Chitosan for
overweight or obesity. Cochrane Database Syst Rev. 2008 Jul 16;(3):CD003892.
Kaats GR, Michalek JE, Preuss HG. Evaluating efficacy of a chitosan product
using a double-blinded, placebo-controlled protocol. J Am Coll Nutr. 2006 Oct;25(5):389-94.
Neyrinck AM, Bindels LB, De Backer F, Pachikian BD, Cani PD, Delzenne NM.
Dietary supplementation with chitosan derived from mushrooms changes
adipocytokine profile in diet-induced obese mice, a phenomenon linked to its
lipid-lowering action. Int Immunopharmacol. 2009 Jun;9(6):767-73. Epub 2009 Mar
13.
Tapola NS, Lyyra ML, Kolehmainen RM, Sarkkinen ES, Schauss AG. Safety aspects
and cholesterol-lowering efficacy of chitosan tablets. J Am Coll Nutr. 2008 Feb;27(1):22-30.
Zhou GD, Li MR, Zhang J, Pan D, Zhao SX, Yang JF, Yu J, Zhao JM. Chitosan
ameliorates the severity of steatohepatitis induced by high fat diet in rats.
Scand J Gastroenterol. 2008;43(11):1371-7.
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