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Depresso e atividade fsica

Julio Papeschi

10/07/2011

Depresso e atividade fsica
Segundo a Organizao Mundial da Sade, a psicopatologia Depresso classificada como um transtorno mental, que se apresenta com humor deprimido, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa e fracasso, baixa auto-estima, alteraes no sono e apetite, baixa energia e dificuldade de concentrao (WHO, 2011).

Comumente chamada de doena do sculo ou doena da vida moderna, a Depresso atinge mais de 121 milhes de pessoas no mundo, e est associada a 850 mil mortes anuais, o que inclui um nmero elevado de suicdios (WHO, 2011). No Brasil os nmeros esto em concordncia com os valores mundiais, o pas apresenta aproximadamente 17 milhes de indviduos com quadro depressivo. A incidncia da Depresso duas vezes maior em mulheres, no entanto, no encontra relao com classe social, etnia e nvel educacional (Weissman et al., 1996; Kendler et al. 2004). Uma previso da Organizao Mundial de Sade faz um alerta prevendo que no ano de 2020 a depresso ser a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vidas, superando patologias como cncer e ficando atrs somente de problemas cardiovasculares (WHO, 2011).

Estima-se que aproximadamente 25% da populao mundial apresentar alguma crise depressiva em algum momento da vida. Por seu carter recorrente, postula-se que 80% dos pacientes que desenvolvem o quadro de depresso voltaro a ter pelo menos um segundo quadro durante suas vidas (Anderson IM, 2000) . Estes episdios tendem a se repetir se no tratados adequadamente e a chance de sucesso fica menos eficiente a cada episdio, que duram em mdia 6 meses ou at mais (Schulberg et al. 1999).

As causas que levam ao desenvolvimento da depresso ainda no esto bem claras e so alvos de investigao. Segundo a teoria mais aceita, a depresso estaria ligada a deficincia do funcionamento ou no dficit na produo de alguns neurotransmissores ou no funcionamento de alguns neuroreceptores sinpticos, ligados a reas do crebro que promovem sensaes de bem estar e prazer. Dentre eles, se destacam a serotonina, a dopamina e a noradrenalina, no entanto, alguns outros vem sendo estudados (Manji et al 2001). Estas teorias se apiam nos resultados positivos na diminuio dos nveis de depresso em relao a grupos controles decorrentes do uso dos medicamentos que promovem elevao no nvel destas substncias. A eficincia do uso antidepressivos de 60% a 80% dos casos (Schulberg et al. 1999). Porm esses resultados no so significativos nos casos de depresso leve em relao a grupos controle (Depression Guideline Panel , 1993; Weissman et al., 1996). O que ainda fonte de pesquisa e de curiosidade, que a ao de elevao dos neurotransmissores aps os uso de drogas antidepressivas de trs horas, e diminuio dos sintomas de trs semanas (Anderson IM, 2000)

A hiptese de que a depresso poderia ter relao com a hereditariedade foi levantada por Warner et al. 1999, que verificaram que crianas cujos familiares diretos (duas geraes ascendentes) com histricos de depresso tinham 30% a mais de chances de desenvolver a doena do que crianas sem histrico de depresso familiar. Um dado alarmante que 60% destas crianas desenvolviam a doena at a adolescncia. Outros estudos indicam que os quadros de Depresso costumam ser de 2 a 3 vezes mais comuns em indivduos cujos parentes biolgicos em primeiro grau possuam histria de Depresso do que na populao geral (Fleurence et al. 2009 Bierut et a., 1999). No entanto, o fator ambiental bem destacado como elemento fundamental para o desencadeamento da doena. (Berlim et. al, 2001; Kendler et al. 2001; Kendler et al. 2002)

A cincia busca associaes tambm entre a depresso a questes biolgicas/fisiolgicas (patologias diversas, gestao, menopausa, envelhecimento...) e/ou psicossociais (falecimento de familiares, perda de emprego, separao, nascimento de filho, stress...), no entanto, tais eventos no podem ser responsabilizados pelo desenvolvimento e manuteno da doena, pois seno, todas as pessoas que sofressem com problemas parecidos desenvolveriam a depresso.

O diagnstico da depresso no fcil de ser feito, isto porque no existem parmetros fisiolgicos ou biolgicos que possam determinar de maneira definitiva e conclusiva a presena da doena. Alguns instrumentos (questionrios e escalas) desenvolvidos por organizaes na rea da sade e pesquisadores do assunto buscam realizar esta tarefa. Dentre eles se destacam, a Escala de Depresso de Beck (BDI), um questionrio de auto avaliao a Escala de Hamilton para Depresso (HAM-D), que a escala mais utilizada mundialmente considerada padro ouro no diagnstico de depresso, o Manual de Diagnstico e Estatstica das Perturbaes Mentais (DSM-IV) 2 e a Classificao Estatstica Internacional de Doenas e Problemas Relacionados Sade (CID-10) 3 , as trs ltimas escalas aplicadas por profissionais especialistas (Hamilton, 1960; Beck et al.1961; OMS, 1996; American Psychiatric Association, 1994).

Para determinao da intensidade do grau de depresso, da mais fraca a mais severa, e a classificao de suas diferentes manifestaes estes questionrios ou escalas devem atingir critrios especficos em cada uma delas. (Hamilton,1960)

As formas mais comuns de tratamento esto relacionadas ao uso de medicamentos antidepressivos e a psicoterapia. Sobre o uso de medicamentos, encontram-se disponveis algumas classes de drogas antidepressivas, distintas pela sua ao no organismo. Atualmente as drogas mais utilizadas no tratamento da depresso so aquelas que tm como princpio a inibio da recaptao das monoaminas (serotonina/noradrenalina). (Schulberg et al. 1998; Schulberg et al. 1999). Embora a eficincia seja comprovada, o custo elevado e os efeitos adversos do uso continuado, que aparecem com freqncia, causam mudana de dosagem, tipo de medicamento, estratgia de tratamento, e tambm o desmame (reduo progressiva na dosagem) aps um perodo continuado, levando tanto a classe mdica quanto os pacientes a buscarem alternativas ao tratamento por medicamentos (Dupuy et. al., 2011; Loonen et al. 1991).

Uma forma de tratamento auxiliar que ganha um espao cada vez maior no combate a doena a da prtica de exerccios. Mens sana in corpore sano, certamente a proposta do poeta romano Ulisses, se lida em ordem inversa, encontrar amparo na literatura cientfica.

Alguns estudos j encontram relao inversa entre os nveis de aptido fsica e os nveis de depresso (Lawlor et al. 2001; Salmon et al., 2001; Goodwin, 2003) e que o engajamento em programas de exerccios traz melhoras nos nveis de depresso e ansiedade (North et al. 1990; Salmon, 2001). Paffenbager et al. 1994, realizaram um estudo longo, com durao de 25 anos, e encontraram correlao inversa entre os nveis de atividade fsica e os nveis depresso em um grupo de mais de 10.000 homens.

Excelentes revises e meta anlises sobre o tema tambm verificaram a diminuio dos nveis de depresso atravs da prtica da atividade fsica regular (North et al. 1990; Martinsen, 1990; Stich et al. 1998; Dunn et al. 2005; Carek et al. 2011).

Diemo et al. (2001), realizaram um trabalho no qual apenas trinta minutos de caminhadas durante somente 10 dias foram suficientes para reduo significativa dos nveis de depresso pelas escalas de depresso de Hamilton.

A prtica de exerccios em conjunto com o uso de medicamentos tambm se mostrou altamente eficiente em diversos estudos. Blumenthal et al. (2007), dividiram 202 adultos, 153 mulheres e 49 homens em 4 grupos e comparam diferentes intervenes na diminuio dos nveis de depresso durante 16 semanas. O 1 grupo recebia plulas placebos, o 2 grupo iniciou o tratamento recebendo diariamente 50mg de sertalina, um anti depressivo que age na inibio da recaptao da serotonina, aumentando a dose at 200 mg at o final do tratamento, o 3 grupo realizava 30 minutos atividades aerbias em casa e, por fim, um 4 grupo realizava 30 minutos atividades aerbias supervisionadas ambos entre 70 e 80% da Freqncia cardaca mxima de reserva. Ao trmino do estudo os grupos 2, 3 e 4 apresentaram diferenas significativas para o grupo 1, no entanto, no apresentaram diferenas significativas entre si. Um achado interessante do estudo foi o resultado, o resultado significativo para os grupos que realizaram atividade fsica sem diferena entre eles. Isto possivelmente indica que os caminhos que levam as alteraes de diminuio dos nveis de depresso vo alm dos aspectos motivacionais.

Outro estudo interessante buscou a comparao da prtica de exerccios e o uso de medicamento. Durante 16 semanas, 156 sujeitos com idade superior a 50 anos, com diagnstico de depresso avaliado pelo DSM IV, HRSD e BDI, foram submetidos a trs intervenes diferenciadas: 30 minutos de atividade aerbia supervisionada entre 75% e 85% da freqncia cardaca mxima trs vezes por semana, 200 mg dirios de sertalina ou a combinao dos dois. Ao final das 16 semanas do estudo todos os grupos obtiveram reduo nos nveis de depresso, sem diferena significativa entre os grupos. No entanto, quando os indivduos foram classificados pelo grau de intensidade da doena, aqueles que apresentavam nveis de depresso mais severos, conseguiram resultados mais significativos quando participavam do grupo exerccio em relao aos outros grupos. Um outro elemento importante do estudo que passadas 30 semanas aps o trmino da interveno, o risco de recada foi significativo somente para o grupo exerccio (Babyak et al. 2000).

Com relao ao tipo de atividade, um trabalho pioneiro de Martinsen et al. (1989), comparou atividades aerbias de intensidade moderada com atividades no aerbias (fora, flexibilidade, coordenao) durante 8 semanas e no encontrou diferena significativas entre os grupos.

Exerccios de fora e exerccios aerbios foram investigados tambm por Doyne et al. (1987). Neste trabalho, 40 mulheres foram selecionadas e classificadas aps aplicao do Research Diagnostic Criteria, um questionrio para determinao do quadro de depresso. Posteriormente foram divididas em 3 grupos: corrida aerbia, treinamento de fora e grupo controle. Os nveis de depresso foram mensurados pelo Beck Depression Inventory, Lubins Depression Adjective Check List, e pelo Hamilton Rating Scale for Depression, durante, e imediatamente aps 8 semanas de prtica das atividades, e 1, 7 e 12 meses aps o estudo. Redues significativas nos sintomas de depresso foram encontrados nos grupos que realizaram corrida e treinamento de fora comparados ao grupo controle, contudo, no foram encontradas diferenas significativas entre os grupos, indicando ambas atividades podem ser eficientes no tratamento da depresso.

Com relao intensidade das atividades Motl et al. (2006), verificaram nveis baixos de depresso em adolescentes que realizavam atividades recreacionais vigorosas. Algumas tentativas de dosagens da quantidade de exerccio foram propostas Dunn et al. (2005). Os pesquisadores sugerem que as atividades sejam realizadas entre 2 e 3 vezes na semana para um gasto de 17,5 kcal/kg como um formato de prescrio de treinamento para o tratamento da depresso.

Os mecanismos responsveis pela diminuio dos nveis de depresso ou at mesmo a diminuio do risco de seu desenvolvimento por praticantes de atividade fsica regular so desconhecidos. Aumento na produo de noradrenalina, serotonina, melhora da auto-imagem, maior sociabilizao, podem ser alguns caminhos a ser aprofundados.

Como tratamento auxiliar psicoterapia e ao uso de medicamentos, a atividade fsica j reconhecida como um meio importante no tratamento da depresso. Mais pesquisas so necessrias com metodologias confiveis, grupos equalizados, presena de grupo controle, para ser determinada como uma forma efetiva no tratamento da doena.

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