Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Atividade fsica em jejum

Paulo Gentil

01/01/2002

No combate gordura, todas as armas parecem atraentes, desde as prticas mais simples at as mais sacrificantes, como os treinos em jejum. A realizao de exerccios antes do caf da manh j era pregada h muito tempo, mas ganhou maior popularidade com o livro Body for Life, de Bill Phillips.

Jejum e crebro

O crebro um rgo extremamente ativo, apesar de constituir cerca de 2% da massa total de um adulto, ele responsvel por quase 15% de nosso gasto energtico de repouso, em torno de 7,5 vezes mais que os outros tecidos. Tamanha demanda metablica devida principalmente conduo de impulsos nervosos, pela bomba de sdio-potssio. Por que estou tocando nesse assunto? Porque, em condies normais, esta demanda energtica suprida pela glicose sangnea, e supe-se que o jejum possa afetar negativamente o metabolismo cerebral.

Em condies normais os nveis sangneos de glicose ficam em torno de 80-90 mg/100 ml. Quando permanecemos em jejum, inicia-se a gliconeognese, com mobilizao das reservas de carboidratos do fgado. Ocorre, em seguida, o catabolismo das protenas que so diretamente utilizadas pelos tecidos ou convertidas em glicose. Aps esta fase de utilizao de protenas e carboidratos, prioriza-se finalmente a mobilizao da gordura, com a formao de corpos cetnicos, que podem atravessar a barreira sangue crebro e serem utilizados como energia. Se o jejum prosseguir por muito tempo, intensifica-se novamente o catabolismo protico, desta vez de forma mais acentuada e danosa.

Em repouso, um organismo saudvel pode se adaptar ao jejum com certa facilidade, mas diante de uma demanda metablica elevada, como nos exerccios a situao pode no ser to simples. Muitas pessoas no conseguem se adaptar de forma eficiente e o organismo procura se proteger induzindo desmaios. Alm dos perigos envolvidos nos desmaios, h um muito mais grave: danos neurais permanentes. Isto significa que se o a adaptao no for rpida e eficientemente, seu crebro pode ser gravemente lesado (AUER, 1986; AUER et al, 1993; DE COURTEN-MYERS et al, 2000; DOLINACK et al, 2000; NEHLIG, 1997).

Jejum e queima de gordura

Diversos estudos tm mostrado que a realizao de exerccios em jejum leva a economia de glicose e maior mobilizao de gordura durante a atividade e algum tempo aps seu trmino. Porm no devemos esquecer que diante da escassez de alimentos o corpo pode entrar em um estado de racionamento de energia diminuindo o gasto energtico, conforme verificaram pesquisadores coreanos (LEE et al, 1999). Devemos lembrar que a quantidade de energia gasta aps a atividade, no necessariamente relacionada queima de gordura, mas sim sua intensidade (CALLES-ESCANDON et al, 1996; LEE et al, 1999).

Em pesquisa publicada em 1999, estudaram-se as respostas hormonais em atividades aerbias diante de duas situaes: 1) jejum de 12 horas; e 2) ingesto de carboidratos (antes e durante o teste). De acordo com os resultados o jejum leva a maior oxidao de gordura, refletido em um coeficiente respiratrio menor. Como esperado, as taxas de glicose e insulina foram menores no jejum, com a insulina permanecendo elevada 1,5 hora aps o trmino da atividade. Porm os nveis de cortisol (hormnio catablico) quase dobraram durante a pedalada e mantiveram-se 80% maiores 90 minutos aps o fim do exerccio, em relao ao grupo que ingeriu carboidratos. (UTTER et al, 1999)

A ocorrncia da maior oxidao de gordura no jejum um ponto pacfico, mas observe a seguinte pesquisa e reflita sobre a relevncia dos fatos. Em estudo realizado na Universidade de Vermont foram testadas as respostas metablicas durante e aps uma atividade aerbia em trs condies nutricionais: 1) ingesto de lanche slido (43 gramas de carboidratos, 9 de gordura e 3 de protenas), 2) bebida com frutose (65 gramas de frutose dissolvidas em 250ml de gua) e 3) gua flavorizada (250ml de gua adoada com apartame) (CALLES-ESCANDON et al, 1991). Os resultados foram os seguintes:

Oxidao de gordura no exerccio Diferena em relao ao placebo Oxidao de gordura na recuperao Diferena em relao ao placebo
Doce 266 mg/min + 8 75 mg/min - 45
Frutose 261 mg/min +4 93 mg/min -27
Placebo 257 mg/min --- 120 mg/min ---


Os resultados mostram que 60 minutos aps se exercitar em jejum voc queima mais gordura do que se tivesse ingerido frutose (+/-30% a mais) ou glicose (+/- 60% a mais) antes da atividade. Dentro da matemtica estes nmeros parecem bem expressivos, mas na vida real as coisas so diferentes. Observe a unidade de medida, miligramas por minuto, para expressarmos os valores em gramas devemos dividi-los por 1.000. Como exemplo, peguemos a segunda linha da tabela acima (a iniciada com Doce), teramos assim, uma diferena de 45 mg em um minuto isto significaria que em uma hora voc gastaria apenas 2,7 gramas de gordura a mais do que se tivesse feito um bom lanche. Desta forma, para que voc consiga uma diferena de 1 quilo de gordura, este mesmo nmero teria que se repetir mais de 370 vezes (mais que o nmero de dias de um ano)!!! Por que algumas pessoas perdem peso se exercitando em jejum? Uma explicao razovel seria que, por bem ou por mal, esta prtica reduz o gasto calrico dirio, pois voc obrigatoriamente passar de 8 a 12 horas sem comer, alm de exigir uma boa dose de determinao e disciplina, o que pode estimula-lo na dieta e treinos.

Porm no existem provas suficientes para defender o treino em jejum, por mais que se alegue uma maior utilizao relativa de gordura durante e alguns minutos aps o treino, estes nmeros so inexpressivos quando expostos em termos absolutos. A prpria nfase na utilizao de gordura durante o treino ultrapassada e remonta a discusso dos exerccios aerbios (ver A verdade sobre aerobios e emagrecimento).

Tambm no h provas cientficas diretas para condenar totalmente a realizao de atividades fsicas em jejum. Empiricamente, vemos que algumas pessoas se adaptam bem a esta situao, optando inclusive por no se alimentar antes dos treinos. Porm ressalto que esta uma questo individual de bem-estar e induzir algum a praticar atividades fsicas em jejum com objetivos estticos, sem analisar seu quadro geral, no um procedimento correto, de acordo com as bases cientficas atuais.

Referncias bibliogrficas

AUER RN, SIESJO BK. Hypoglycaemia: brain neurochemistry and neuropathology. Baillieres Clin Endocrinol Metab 1993 Jul;7(3):611-625

AUER RN. Progress review: hypoglycemic brain damage. Stroke 1986 Jul;17(4):699-708.

CALLES-ESCANDON J, DEVLIN JT, WHITCOMB W, HORTON ES. Pre-exercise feeding does not affect endurance cycle exercise but attenuates post-exercise starvation-like response. Med Sci Sports Exerc 1991 Jul;23(7):818-24

CALLES-ESCANDON J, GORAN MI, O'CONNELL M, NAIR KS, DANFORTH E JR. Exercise increases fat oxidation at rest unrelated to changes in energy balance or lipolysis. Am J Physiol 1996 Jun;270(6 Pt 1):E1009-14.

DE COURTEN-MYERS GM, XI G, HWANG JH, DUNN RS, MILLS AS, HOLLAND SK, WAGNER KR, MYERS RE. Hypoglycemic brain injury: potentiation from respiratory depression and injury aggravation from hyperglycemic treatment overshoots. J Cereb Blood Flow Metab 2000 Jan;20(1):82-92.

DOLINAK D, SMITH C, GRAHAM DI. Hypoglycaemia is a cause of axonal injury. Neuropathol Appl Neurobiol 2000 Oct;26(5):448-453.

LEE YS, HA MS, LEE YJ The effects of various intensities and durations of exercise with and without glucose in milk ingestion on postexercise oxygen consumption. J Sports Med Phys Fitness 1999 Dec;39(4):341-7.

NEHLIG A. Cerebral energy metabolism, glucose transport and blood flow: changes with maturation and adaptation to hypoglycaemia. Diabetes Metab 1997 Feb;23(1):18-29.

UTTER AC, KANG J, NIEMAN DC, WILLIAMS F, ROBERTSON RJ, HENSON DA, DAVIS JM, BUTTERWORTH DE. Effect of carbohydrate ingestion and hormonal responses on ratings of perceived exertion during prolonged cycling and running. Eur J Appl Physiol Occup Physiol. 1999 Jul;80(2):92-9.