Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Como ler um artigo cientifico

Digenes Alves

23/11/2003

Em nossa sociedade atual, o nmero de novas informaes aumento em uma velocidade incrvel. Em nenhum momento da histria da humanidade fomos to bombardeados por informaes. Neste mesmo sentido, a quantidade de publicaes envolvendo a sade e, principalmente, a atividade fsica surpreendeu at mesmo os profissionais da rea. Artigos que defendem todos os tipos de teorias, desde as mais mirabolantes at as confirmaes de bases j consolidadas (se isto em cincia existe). Portanto, existe uma necessidade urgente e bsica de se saber como ler um artigo e da forma de se posicionar diante dele. Este artigo tem o propsito de identificar tpicos que facilitem a compreenso, a busca de um pensamento crtico da literatura cientfica atual e uma nova mentalidade para os profissionais de educao fsica.

O texto coerente?

Ao ler um livro, artigo ou texto importante identificar a mensagem que o autor deseja passar, o que prope transmitir ao leitor. Porm, devido a uma inconsistncia da teoria ou da mensagem que se retrata e a poucos argumentos, o texto muitas vezes se mostra incoerente. Enfim, o texto cria uma soluo e no a verifica3.
Quem props a idia e aonde foi publicado.

Todos, enquanto humanos, esto propensos ao erro, entretanto autores famosos e de ampla autoridade na rea (quem nunca ouviu falar de KRAEMER, FLECK e ENOKA na rea de treinamento fsico?), tem em seus artigos uma boa reputao, e tambm conseguem desenvolver trabalhos consistentes e imparciais, podendo propor idias conflitantes com os dogmas da cincia atual. So autores que conseguem capital para suas pesquisas sem ficarem presos a grandes corporaes.

Outro aspecto importante em qual peridico o artigo foi publicado. Jornais como o European Journal of Applied Physiology, Journal Applied Physiology, Medicine and Science in Sports and Exercise e outros, passam por uma bateria de testes e revises cientficas para serem aceitos e publicados, podendo levar um ano para percorrer estas etapas. Entretanto, existem jornais que devido a sua pouca divulgao, publicam artigos contando apenas com pequeno incentivo financeiro para ser publicado.

De que modo o autor est ligado a teoria

Para toda hiptese estudada pelo autor do artigo, uma tese formulada em relao aos conceitos oriundos do seu conhecimento, entretanto os autores podem se ligar teoria de forma a torn-la parte de si prprio, e todas vezes que a teoria questionada, o indivduo leva como crtica a ele mesmo. a obsesso do autor pela sua teoria, da qual no se liberta mesmo quando esta no confirmada pela observao.
o caso de um estudo de periodizao no qual foi comparado o treino periodizado e o progressivo5. O treino progressivo teve melhores resultados do que o treino periodizado em um perodo de 15 semanas, porm, para no enfraquecer a defesa da periodizao no treino de fora, foi considerada a hiptese de que o treino periodizado tem sua eficincia em programas a mdio e longo prazo. Uma concluso verdadeiramente absurda, uma vez que no foi este o fato comprovado e tambm no foi a hiptese testada. O citado artigo foi publicado no Jounal of Strength and Conditioning Research, que tem como editor chefe nada mais que KRAMER, defensor feroz do treino periodizado4. Ser que o treino periodizado realmente eficaz? Se levarmos em considerao a concluso, veremos que totalmente contrria ao artigo. Ento por que chegaram a esta concluso? Provavelmente, devido aos autores estarem atrelados obsesso de comprovar idias que acreditam ser inquestionveis, verdadeiros dogmas.

Outros exemplos seriam os autores que defendem a hipertrofia miofibrilar e sarcomlasmtica sem nenhuma confirmao cientfica. Vrios autores tentam justificar e provar que existem, entretanto, sem nenhum embasamento cientfico, somente teses prprias (veja mais em ).

Outros fatores importantes so as caractersticas econmicas a que os autores podem estar ligados em seus artigos. Grandes industrias patrocinam estudos que ( claro) defendam seus produtos, mostrando vantagens que muitas vezes no so reais. o caso dos artigos HMB ligados ao autor NISSEN8,9,10,11,12 e sua ligao com a patente do produto (veja mais em ). Muitas vezes autores consagrados como CLARKSON, com vrias publicaes no Medicine and Scienca in Sports and Exercise1,2 , escrevem artigos que so publicados e patrocinados por grandes empresas, neste exato caso, a GATORADE. Ser que o estudo completamente isento de motivaes financeiras? interessante notar que todos os artigos publicados e patrocinados pela GATORADE1,2 sempre (lgico) apresentaram vantagens no consumo desta bebida. O questionamento do grau de confiabilidade destes estudos fica ao encargo do leitor.

Como utilizada a estatstica e como so os critrios de avaliao?

A amostra no ser sempre a referncia em um estudo, mesmo se trabalhssemos com uma amostra de 10%, o que j seria um valor altssimo para a maioria dos trabalhos envolvendo atividade fsica (veja os artigos atuais e ver que a maioria trabalha com no mximo, 20 pessoas devido tentativa de fechar os parmetros de dissociao). Exemplificando, um estudo de obesidade deve considerar a predisposio gentica, a dieta, a atividade fsica, hbitos como fumar e tantos outros. Ainda assim, seria difcil tirar concluses globais, logo que as diferenas regionais, alimentares, fsicas so caractersticas marcantes da espcie humana.
Vrias situaes podem ser estabelecidas se as estatsticas forem manipuladas3.

Concluso

Portanto, uma anlise levando em considerao no s o artigo, mas todas as caractersticas que possibilitam a sua publicao deve ser realizada, avaliando e criticado o material para um crescimento do pensamento crtico que a comunidade cientfica exige. importante que deixemos de ser apenas reprodutores de artigos para sermos pesquisadores, com novas idias e conhecimento sobre o assunto.
Obs:
Este apenas um passo. Vrios outros pontos poderiam ser abordados, e o importante que cada um crie seu mtodo de ler e assimilar um artigo, como tambm critic-lo, seja positivamente ou negativamente (veja que no texto acima se fala positivamente e negativamente de mesmos autores como KRAEMER E CLARKSON, o vlido verificar o que bom e o que ruim de cada artigo).

Referencias Bibliogrficas

1. CLARKSON, P. M. Exercise-induced muscle damage: animal and human models. Medicine and Science in Sports and Exercise. 1992; 24: 510-511.
2. CLARKSON, P. M., NOSAKA, K & BRAUN, B. Muscle function after exercise-induced muscle damage and rapid adaptation. Medicine and Science in Sports and Exercise. 1992;24: 512-520.
3. EHRLICH, ROBERT. - As Nove Idias Mais Malucas da Cincia. Editora Ediouro, 2002, So Paulo.
4. FLECK, STEVEN J. & KRAEMER, WLLIAM J. Fundamentos do treinamento de fora muscular. Editora Artes Mdicas, 1999.
5. HERRICK, A. B; STONE, W. J. - The effects of periodization versus progressive resistence exercise on upper and lower body strength in women. J. Strength and Cond. Res. 10 (2): 72-76, 1996.
6. LAMB, David R.; SHEHATA, Adel Helmy - Benefcios e Limitaes da Pr- hidratao _ Sports Science Exchange - 1999
7. MURRAY, BOB. Reposio de fludos. Sports Science Exchange - 1997
8. NISSEN S, FAIDLEY TD, ZIMMERMAN DR, IZARD R, FISHER CT. Colostral milk fat percentage and pig performance are enhanced by feeding the leucine metabolite beta-hydroxy-beta-methyl butyrate to sows. J Anim Sci. 1994;72: 2332-2337.
9. NISSEN S, FULLER JC JR, SELL J, FERKET PR, RIVES DV. The effect of beta-hydroxy-beta-methylbutyrate on growth, mortality, and carcass qualities of broiler chickens. Poultry Sci. 1994;73:137-155.
10. NISSEN S, PANTON L, FULLER J, RICE D, RAY M, SHARP R. Effect of feeding -hydroxy--methylbutyrate (HMB) on body composition and strength of women. FASEB J. 1997;11:A150.
11. NISSEN S, SHARP R, RAY M, RATHMACHER JA, RICE D, FULLER JC, CONNELLY AS, ABUMRAD N. Effect of leucine metabolite beta-hydroxy-beta-methylbutyrate on muscle metabolism during resistance-exercise training. J Appl Physiol 1996 Nov;81(5):2095-104.
12. NISSEN S, SHARP RL, PANTON L, VUKOVICH M, TRAPPE S, FULLER JC. beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB) supplementation in humans is safe and may decrease cardiovascular risk factors. J Nutr 2000 Aug;130(8):1937-45.