Grupo de Estudos Avançados em Saúde e Exercícios

 

Hipertrofia sarcoplasmtica x miofibrilar

Paulo Gentil

24/10/2003

[Existem basicamente dois tipos de hipertrofia: sarcoplasmtica e miofibrilar. A primeira muito vista em fisiculturistas e atletas que treinam com repeties mais elevadas (maiores que 10), sendo uma de suas caractersticas bsicas o aumento de volume com pequeno aumento de fora, desta forma fica claro que a hipertrofia sarcoplasmtica se manifesta em um aumento do lquido e demais organelas do sarcoplasma, que no as miofibrilas. J a hipertrofia miofibrilar mais vista em levantadores de peso, os quais treinam com repeties mais baixas (normalmente abaixo de 6), este tipo de hipertrofia manifesta-se morfologicamente como um aumento da densidade miofibrilar (aumento do tamanho do volume das miofibrilas) sem um aumento correspondente das demais organelas, desta forma h um ganho mais significativo de fora.]

Em princpio este pargrafo est de acordo com o senso comum... mas onde se comprova que isso verdade? Onde se explica isso de forma convincente?

A diviso de hipertrofia em dois tipos um dogma to antigo e repetido que j aceito como verdade absoluta, porm esta viso simplista no encontra fundamentos e em grande parte de suas bases colide fortemente com as descobertas e conceitos cientficos atuais.

Msculo cardaco

A diferena na alterao da densidade miofibrilar comumente verificada em coraes de animais (MEDUGORAC, 1976), mas mesmo nesses casos ainda h controvrsias, com alguns estudos verificando o contrrio (MATTFELDT et al, 1986; EVERETT et al 1975). A diferena pode estar no protocolo empregado, pois a maioria dos estudos que verificaram alteraes nas densidades dos componentes ultraestrutturais induziram condies patolgicas ou foram feitos em coraes com degeneraes patolgicas (FITZL et al, 1998), enquanto os outros utilizaram um programa de exerccios mais equilibrado.

A ocorrncia de uma "hipertrofia sarcoplasmtica" como condio patolgica tambm foi verificada em coraes humanos hipertrofiados em razo de uma patologia na vlvula da aorta, onde constatou-se que as clulas destas pessoas possuam menor densidade miofibrilar e maior volume de liquido sarcoplasmtico (SCHAPER et al, 1981)

Densidade de organelas

Pesquisadores da Universidade de McMaster (Canad) realizaram um estudo para verificar as alteraes nas fibras musculares em resposta a diferentes tipos de treino. A amostra era composta por 4 grupos: atletas de fora (levantadores de peso e fisiculturistas), atletas de endurance (maratonistas), pessoas ativas (esportes recreativos) e sedentrios, a anlise envolveu tanto fibras tipo I quanto tipo II do trceps sural. De acordo com os resultados as fibras musculares eram 2,5- 1,7- e 1,6 vezes maiores em atletas de fora, atletas de endurance e pessoas ativas, respectivamente, em relao ao grupo controle. Apesar desta grande diferena de tamanho, os volumes relativos do reticulo sarcoplasmtico, sarcoplasma e miofibrilas eram iguais em todos os grupos e entre os dois tipos de fibra. De todas as organelas estudadas a nica que mostrou ter sua quantidade relativa alterada foi a mitocndria. Ou seja, independente da fibra muscular ser de um atleta de fora ou endurance, independente das fibras serem tipo I ou tipo II, todas elas possuam cerca de 81% de densidade miofibrilar e 11% de volume de lquido sarcoplasmtico. Ora, se a suposio que o treino de fora com cargas elevadas aumente a densidade miofibrilar e reduza o volume de lquido sarcoplasmtico, seria de se esperar que os atletas de endurance possussem densidade miofibrilar reduzida e maior volume relativo lquido, assim como poderia se esperar que esta relao fosse diferente entre os dois tipos de fibra, porm nenhuma das suposies se confirmou.

Estudos longitudinais parecem corroborar com os resultados do grupo de ALWAY. Em 1986 BRZANK & PIEPER submeteram um grupo de estudantes a 5 semanas de treinamento de fora explosiva, obtendo hipertrofia das fibras tipo I (20%) e tipo II (24%). Porm os autores verificaram que o aumento da seco transversa no relacionado a nenhuma mudana na proporo dos volumes dos componentes celulares (miofibrilas e sarcoplasma). Estes autores inclusive fazem uma afirmao controversa: "ao contrrio de atletas de endurance e pessoas no treinadas, os atletas de potncia mostram maiores valores de densidade de volume sarcoplasmtico em suas fibras musculares", ou seja, justamente o contrrio do que se prega.

WANG et al (1993) realizaram um estudo mais longo que o anterior. Nesta pesquisa se utilizou um treino de fora com altas repeties por 18 semanas e obteve-se aumento tanto do volume absoluto das miofibrilas quanto do volume intermiofibrilar sem, no entanto, ocorrerem alteraes nos seus volumes relativos, levando os autores a concluir que o treino de repeties elevadas ocasiona um aumento dos componentes da fibra muscular proporcional ao aumento da prpria fibra.

Existe um estudo produzido por pesquisadores da Universidade McMaster (Canad) que por vezes citado como base para a diferenciao da hipertrofia em dois tipos. Nesta pesquisa comparou-se amostras retiradas do trceps braquial de um grupo de atletas que possuam elevados nveis de hipertrofia (fisiculturistas e levantadores de peso) com pessoas que praticavam musculao h 6 meses. De acordo com os resultados, o volume miofibrilar era significativamente menor (73,2% em comparao com 82,5%) e o volume citoplasmtico maior (24,1% contra 14,8%) em atletas de fora do que pessoas que treinam h 6 meses.

Porm h um pequeno detalhe nesta pesquisa: dos sete atletas da amostra, seis afirmaram estar usando ou terem usado esterides anablicos andrognicos regularmente, enquanto ningum do grupo controle o fazia. Neste estudo os autores ficaram surpresos com "anormalidades" como: grande nmero de ncleos no centro da clula (os ncleos normalmente ficam na periferia), proliferao de tecido gorduroso e aumento anormal do espao citoplasmtico. Uma das hipteses sugeridas pelos autores que o uso de esterides ocasionou tais efeitos, assim como ocasionou a reteno de fludos, (fato j verifica em animais por APPELL et al, 1983) o que por sua vez dissolveu as protenas miofibrilares. interessante notar que o volume miofibrilar encontrado nesse estudo expressivamente baixo em relao s demais pesquisas feitas (mesmo em pesquisas feitas na mesma Universidade e com os mesmo autores), mais um fato que gera espanto e impulsiona as concluses para uma condio patolgica.

A questo da diferenciao de hipertrofia, desta forma estaria associada a uma condio patolgica e no meramente a uma adaptao corriqueira de treinos diferenciados.

Como a densidade se mantm constante

A densidade constante dos componentes proticos pode estar relacionada tambm densidade do nmero de ncleos, pois quando uma fibra hipertrofia h um aumento compensatrio no nmero de ncleos, tendo em vista a aparente necessidade de se manter uma determinada quantidade de material gentico para atender as necessidades da clula (ROLAND et al, 1999; KADI & THORNELL, 2000). Isto nos leva a especular que o aumento proporcional de material gentico origine uma manuteno da densidade das organelas em um segundo momento. HUBBARD et al (1975) encontraram um interessante padro temporal de hipertrofia em seu estudo: 1) aumento do material gentico; 2) aumento das protenas sarcoplasmticas (praticamente concomitante com o anterior) e 3) aumento da densidade das protenas miofibrilares.

O nico componente que foge a esta densidade constante a mitocndria tendo em vista sua relativa independncia gentica e capacidade autnoma de se multiplicar (h inclusive a suposio que a mitocndria seja um ser vivo em simbiose com nossas clulas).

De onde vem as adaptaes diferenciadas em razo dos diferentes tipos de treino?

A resposta provavelmente reside nos diversos pontos comprovadamente diferentes entre pessoas treinadas em fora ou resistncia e relacionados performance em tarefas especficas (isto pode ser verificado de forma mais completa em bons livros e artigos de treinamento), diante dos quais chega a ser ingnuo atribuir os maiores ganhos de fora em atletas que treinam com repeties baixas a uma alterao morfolgica fictcia. Dentre os fatores j verificados podemos citar os seguintes:

Ganhos de fora (ALWAY et al, 1988; SALE et al, 1983; KAMEN et al, 1983; MILNER-BROWN et al, 1975; MAUGHAN et al, 2000):

- Coordenao inter e intra-muscular

- Bomba de clcio

- Atividade da ATPase

- Velocidade de conduo do impulso nervoso

- Sincronizao de unidades motoras...

Ganhos na resistncia (MACDOUGALL et al ,1979; LUTHI et al, 1986; TESCH et al, 1984; MAUGHAN et al, 2000).

- Volume de mitocndrias

- Densidade capilar.

- Atividade de enzimas oxidativas e glicolticas e outras...

Isto obviamente sem falar de condies genticas que predispem um indivduo a ter maior capacidade de realizar fora em determinados movimentos como: sistema de alavancas favorvel (insero de tendes, comprimento de membros...), estruturas osteo-articulares (capacidade de ossos e articulaes em suportar carga...), vantangens neurais (espessura dos axnios, caractersticas da bainha de mielina...) e outras. Desta forma podemos concluir que a diferena entre um fisiculturista e e um halterofilista, ou entre qualquer outros tipos de atleta de alto nvel, no somente em decorrncia do treinamento, mas tambm em decorrncia de sua predisposio biolgica.

Consideraes finais

A diviso de hipertrofia em dois tipos um dogma to antigo e repetido que j aceito como verdade absoluta, porm esta viso simplista no encontra fundamentos e em grande parte de suas bases colide fortemente com as descobertas e conceitos cientficos atuais.

Esta diviso provavelmente era usada como artifcio didtico pelos soviticos, os quais normalmente mostram uma viso sistmica do treinamento, porm ao traduzir e transferir estes conceitos para a cultura ocidental, ele foi acomodado nossa viso mecanicista e fragmentada, tornado-se um conceito incrivelmente agradvel para o cartesianismo, porm totalmente contraditrio com a viso sistmica, e sem embasamento cientfico. O ser humano parece ter uma enorme propenso a gostar de explicaes fceis de obter e que ao mesmo tempo aparentam ser difceis, mesmo que elas sejam erradas. Distinguir dois tipos de hipertrofia, dando-lhes nomes complexos certamente soa interessante e "tcnico", porm uma mentira repetida mil vezes no se tornar verdade, por mais bonita e agradvel que ela possa parecer.

Desta forma, at que haja provas convincentes da fragmentao morfolgica da hipertrofia em dois tipos (se um dia houver), o mais sensato esquecer este conceito e procurar explicaes comprovadas e convincentes para os treinos.

***Veja mais informaes no livro "Bases Cientficas do Treinamento de Hipertrofia", do professor Paulo Gentil***

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