Exercício e densidade mineral óssea

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           O esqueleto humano, muitas vezes, é visto como algo incapaz de seadaptar e sofrer alterações estruturais importantes, nas quais poderiaminfluenciar o cotidiano das pessoas. Sendo até mesmo esquecido dentro de umavisão sistêmica. Talvez,  isso explique o fato de existir uma incidênciaalta de patologias a acometerem esse sistema (esquelético), como: a osteopenia,osteoporose, raquitismo, osteomalácia, entre outras.

           O intuito desse texto é quebrar a visão limitada e reducionista dosistema esquelético, mostrando o esqueleto como uma estrutura viva, capaz de seadaptar, se reparar e influenciar grandemente a vida e a saúde das pessoas, alémde demonstrar como a atividade física pode interagir nesse processo, talvez demaneira preferencial a outros tipos de intervenção.

Introdução

           Vamos começar pensando na utilidade do esqueleto, pois assim ficarámais claro o porquê de não se colocar sua importância em segundo plano.

           O esqueleto tem a função de oferecer ponto de fixação para os músculos(conferindo a possibilidade de movimento), suporte para os tecidos moles, proteçãoa certos órgãos vitais e reservar minerais (como cálcio, sódio e potássio)que podem ser mobilizados e redistribuídos conforme for necessário aoorganismo. Além de realizar hemopoiese (formação de células do sangue) (1).

           Mesmo após a calcificação, os ossos passam por extensas e constantesremodelações para responder aos estímulos do ambiente. Para tanto, o osso éconstantemente reabsorvido por células chamadas osteoclastos, e novos tecidos sãodepositado por células chamadas osteoblastos. Essa capacidade adaptativa doosso é norteada basicamente pela pressão exercida sobre ou contra ele, porhormônios e/ou pela nutrição. Tanto os osteoclastos como os osteoblastos sãooriginados por células osteoprogenidoras (1).

Pressão

           Aparentemente a pressão exercida no osso (força gravitacional e/oufuncional), é o fator mais relevante quando tratamos a densidade mineral óssea.Sais inorgânicos e fibras colágenas são depositados no osso como resposta aotipo, quantidade e intensidade do estímulo. Porém se essas forças não foremexercidas, parte dos sais minerais depositados serão retirados paraparticiparem de outras funções orgânicas (1,4).

           A atividade física é uma forma de intervenção barata e não farmacológica,que pode maximizar a densidade óssea desde os primeiros até os últimos anosde vida (2,6), na qual fatores relacionados irão interferir diretamente noresultado final do trabalho. Neste contexto, a intensidade e a especificidade doexercício podem ser apontadas como os principais.

           Ao se comparar exercícios resistidos, estudos relatam que a altaintensidade é mais relevante que a baixa, no tocante ao aumento da DMO, alémde oferecerem outras melhoras funcionais relacionadas como: ganhos de forçamuscular e melhora da coordenação motora e do equilíbrio (2, 3, 4,7). Mesmosem alterar a DMO, de forma significativa, exercícios resistidos de baixaintensidade foram satisfatórios em oferecer estímulos suficientes para alteraros marcadores bioquímicos (indicadores do metabolismo ósseo), aumentar aalcaline fosfatase e a osteocalcina (marcadores anabólicos), e reduzir apiridolina (marcador catabólico), porém de forma inferior aos exercícios dealta intensidade (3).

           Em se tratando de exercícios predominantemente aeróbios, mesmo os de longa duração de treinamento, a DMO parece ser preservada em corredoras quetrabalham abaixo do limiar anaeróbio (5). Acima desta intensidade, distúrbioshormonais talvez pudessem trazer alterações metabólicas com reflexo na DMO.

           Diferente do sistema muscular, que sofre adaptações de uma formarelativamente rápida, o sistema esquelético necessita de um tempo maior parase modificar estruturalmente. A remodelagem completa de certos ossos pode levaraproximadamente quatro a seis meses (4).

           O aumento da DMO se dá de forma bastante específica, por exemplo,jogadores de squash, quando comparada a DMO entre o braço não dominante e odominante, esse último apresentou uma maior DMO (4). Esse fato nos leva aconcluir que os estímulos aplicados devem ser o mais específicos possíveis.

Asáreas que geralmente apresentam menor DMO são: a coluna lombar, o colo do fêmure o pulso (2, 3, 4,5). Essas regiões devem ter uma atenção especial,principalmente a coluna lombar, pois são suscetíveis a comprometerem a vida ea saúde das pessoas por estarem diretamente associadas à locomoção e aatividades da vida diária.

           Atividades, nas quais há pouca incidência da gravidade parecem nãodesenvolver a DMO de forma satisfatória. É o caso da natação e do ciclismo,que não revelaram aumento na DMO na coluna lombar, em análises experimentais.(4,5). Um estudo comparou a DMO, da coluna lombar, de jogadoras de vôlei,basquete, nadadoras e não atletas. Os resultados demonstraram que as nadadorasapresentaram o menor valor de DMO, mesmo quando comparadas as não atletas.Esses dados sevem para reforçar que o impacto é um estímulo muito importantepara o tratamento dessa patologia. (5).

           Exercícios, atividades físicas de lazer (principalmente entre os dez evinte anos de idade) e de locomoção (cotidiano), podem contribuir paraaumentar e preservara a DMO independentemente da idade (4, 6). É na pré-adolescênciae adolescência que ocorre o pico de massa óssea, e é nessa fase que grandeparte da população está inserida no contexto escolar, conferindo mais umajustificativa e importância para se ter um trabalho de base em educação físicadentro da escola. Deve-se estimular,  de forma ótima, o pico de massa óssea,na qual provavelmente ocorrerá a maximização da DMO na idade adulta.

Hormônios

           O estrógeno, hormônio sexual feminino, tem papel crítico na manutençãoda DMO. Tanto que, naturalmente após a menopausa ocorre uma perda de massa ósseade forma acelerada correlacionada a diminuição nos níveis desse hormônio(4,7).

Talvezpor isso, mulheres acima dos quarenta anos (principalmente caucasianas), faixapopulacional mais atingida por problemas relacionados a uma baixa DMO, usammuito comumente, a reposição hormonal. Essa terapia é considerada por alguns,a mais importante intervenção para o tratamento e prevenção da osteoporose,embora ainda não totalmente esclarecida (4, 7).

           A terapia de reposição hormonal tem o objetivo de aumentar a absorçãoe reduzir a excreção urinária do cálcio (efeito principal do estrógeno).Isto ocorre basicamente pela inibição do parato hormônio, que aumenta areabsorção óssea, e estimula a calcitonina (hormônio de efeito contrário aoparato hormônio). Pacientes submetidos à reposição hormonal apresentam tambémseus marcadores bioquímicos do metabolismo ósseo modificados positivamente(7). Entretanto é necessário levar em consideração alguns aspectos dessetipo de intervenção.

Osmaiores ganhos obtidos com a reposição hormonal se dão aproximadamente trêsanos após o início do tratamento. Porém é justamente nesta fase que suaeficiência cai e praticamente se encerra. Além disto os hormônios necessitamde limitados receptores específicos determinados geneticamente para sua melhoratuação (4,7). Pessoas geneticamente menos propensas a este tipo de intervençãonão poderiam se valer desses possíveis benefícios ainda não, totalmente,esclarecidos.

           Ainda paira sobre a terapia de reposição hormonal uma possibilidade dedesenvolver câncer, principalmente o de mama, em pessoas propensasgeneticamente (4, 7).

Nutrição

            O aspecto nutricional tambémé relevante na DMO, principalmente em conjunto com a atividade física. Oconsumo de cálcio e vitamina D (necessária para a absorção do cálcio) deveser adequado para dar suporte a formação de osso advinda de um programa deexercícios físicos. A literatura sugere que o consumo de um grama a um grama emeio de cálcio por dia seja suficiente (1, 7). Entretanto,é necessário lembrar que esse cálcio é absorvido no trato gastrintestinal, eque com o passar dos anos, esta ação absortiva diminui. No caso de adultos comidades avançadas, provavelmente uma maior quantidade de cálcio na dieta, comoúnica forma de intervenção, não promoverá grandes resultados.

ConsideraçõesFinais

            A DMO representa um reflexo direto na qualidade e expectativa de vida daspessoas, principalmente nas de idade mais avançada, sendo necessário dentro deuma visão sistêmica, levar em consideração às adaptações as quais osistema esquelético está sujeito.

           Diferentes formas de tratamento podem ser prescritas abrangendodiferentes áreas do conhecimento no campo da saúde. A atividade física feitade forma eficiente, respaldada cientificamente, com valores ótimos de volume eintensidade, de forma específica, levando em consideração fatoresintervenientes de cada caso, representa uma alternativa barata, não farmacológica,não invasiva, segura e capaz de influenciar diretamente a qualidade dessaspessoas.

ReferênciasBibliográficas

1)     SPENCE, Alexander p; AnatomiaHumana Básica; ed. Manole; 1991.

2)      KELLEY GA, KELLEY KS, TRANZV; Resistence training and bonemineral density in women; AmericanJournal of Physical Medicine & Rehabilitation, 2001

3)     VINCENT, Kevin R. And BRAITH, Randy W.; Resistenceexercise and bone turnover in elderly men and women; Medicine &Science in Sports & Exercise, 2002

4)     GERALDES, Armandio A. R; Exercíciocomo estratégia de prevenção e tratamento da osteoporose: potencial e limitações;Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício, vol. 2 nº 1, 2003.

5)     CÉSAR, Marcelo C; PARDINI, Dolores P. E BARROS, Turíbio L; Efeitosdo exercício de longa duração no ciclo menstrual, densidade óssea e potênciaaeróbia de corredoras; Revista Brasileira de Ciência E Movimentovol. 9, nº 2, pp 07-13, 2001.

6)     FLORINDO, A. A; LATORRE, Maria do Rosário D. O; TANAKA, Tomoe; JAIME,Patrícia C; ZERBINI, Cristiano A. F; Atividadefísica habitual e sua relação com a densidade mineral óssea em homensadultos e idosos; Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde,vol. 5, nº 1, 2000.

7)     BEMBEN, Debra A. And FETTERS, Nicole L.; Ttheindependent and additive effects of exercise training and estrogen on bonemetabolism; Journal of Strength and Conditioning Research, 14 (1),114-120, 2000.