Os movimentos humanos são realizados por contrações musculares que geram forças excêntricas às articulações, causando movimentos angulares nos segmentos ósseos. Partindo desse princípio, podemos afirmar de maneira bastante peculiar que o treinamento esportivo é o controle de uma série de movimentos angulares que permite uma interação do corpo humano com o meio para a realização de objetivos específicos. Torna-se então evidente que conhecer e aplicar alguns conceitos básicos da cinética angular são importantes para otimização dos resultados do treinamento.

Hay e Reid (1985) afirmam que a vantagem mecânica influência na quantidade de tensão que o músculo pode produzir. A quantidade máxima de carga que pode ser levantada em qualquer exercício é determinada pela quantidade de carga que pode ser movida em seu ponto mais fraco no movimento (Fleck e Kraemer, 2002). 
Fleck e Kraemer (2002) definem como região presa de um exercício dinâmico a parte em que é mais difícil continuar a movimentar a carga; dificuldade essa causada pela variação do momento (ou torque) durante o movimento, que cria uma desvantagem mecânica em certos instantes. De uma forma simples, podemos dizer que quanto maior a vantagem mecânica, menor será a o esforço exigido (Geraldes, 1993). Em exercícios com pesos livres não é tarefa complicada determinar em que posição ocorre maior ou menor vantagem mecânica. 
Para iniciar a discussão vamos definir algebricamente o momento de força:

M = F x df

Onde: M = momento ou torque; F = magnitude da força (peso); df = distância perpendicular da força e o eixo de rotação. 

Podemos notar que a equação é composta de apenas três termos (vale ressaltar que estamos desprezando todas as demais interações com o meio como resistência do ar e atrito, entre outras forças). Como o peso não irá variar durante a execução do movimento, a única variável que pode alterar o momento é a distância perpendicular entre a força e o eixo de rotação (geralmente o eixo é a articulação em torno da qual ocorre o movimento). Observemos o exercício de rosca direta para ilustrar a situação:

Na figura 1 está ilustrado o ângulo em que os músculos flexores do cotovelo exercem maior força para executar o movimento, isto é, o ângulo em que há necessidade de se opor ao maior momento.

Como utilizar esse conceito, relativamente simples, para melhorar o treinamento?

(Fleck & Kraemer, 1999) sugerem que exercícios isométricos dentro dessa região presa aumentarão a força muscular nesses ângulos e podem assim contribuir para o desempenho no exercício dinâmico. Um sistema isométrico funcional que implica em executar o exercício em uma pequena faixa de amplitude (aproximadamente 5 cm de amplitude), associado ao treinamento com resistência invariável causa aumentos significativamente maiores na força que o treinamento de resistência invariável isoladamente (Jackson et al, 1985 apud Fleck e Kraemer, 2002).

Uma outra estratégia interessante é a utilização de exercícios que proporcionem maiores torques em ângulos articulares diferentes para um mesmo grupamento muscular. Um exemplo seria a execução de rosca bíceps, direta e com apoio no banco Scott. 

Ou ainda uma rosca francesa em pé ou no banco inclinado:

Diversos equipamentos têm sido desenvolvidos com resistência variável para adaptar-se aos diferentes momentos em toda amplitude do exercício, com o intuito de forçar o músculo a contrair-se quase até o máximo por toda a extensão do movimento, resultando em ganhos máximos de força. (Fleck e Kraemer, 2002). Contudo, nem sempre esses equipamentos estão a nosso alcance. Análises desse tipo tornam-se bastante úteis para a seleção de exercícios quando não há disponibilidade de materiais para a variação do treinamento. Sempre que possível é interessante confeccionar um diagrama do corpo livre (esquema onde estão representadas o corpo e todas as forças que agem sobre ele) para melhor visualizar os exercícios e as suas variações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

McGINNIS, Peter M. Biomecânica do Esporte e do Exercício. Editora Armed. Porto Alegre, 2002.
HAY, James G. e REID J. Gavin. As bases Anatômicas e Mecânicas do Movimento Humano. Editora Prentice-Hall do Barsil. Rio de Janeiro, 1985.
FLECK, Steven J. e KRAEMER, Willian J. Fundamentos do Treinamento de Força Muscular – 2ª edição. Editora Artmed. São Paulo, 2002.
GERALDES, Amandio A. R. Ginástica Localizada – Teoria e Prática – 2ª Edição. Editora Sprint.Rio de Janeiro, 1993.