A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição multifatorial que se caracteriza por elevação crônica nos níveis pressóricos > 140 e/ou 90 mmHg (MALACHIAS et al., 2016a). É uma doença diretamente relacionada ao dano cardiovascular, sendo frequentemente associada a alterações metabólicas, funcionais e estruturais de órgãos alvos, aumentando o risco de doenças cardiovasculares (DCV). No Brasil, HAS atinge 32,5% dos adultos e se encontra entre as DCV mais prevalentes na população em geral (MALACHIAS et al., 2016b). Além disso, as DCV apresentam um alto custo para a saúde pública.

Tendo em vista que a HAS é uma condição que depende de vários fatores, a melhor maneira de se prevenir e tratar a HAS é combatendo seus fatores de risco: tabagismo, excesso de peso corporal, consumo de álcool, má alimentação e o sedentarismo. No que diz respeito ao combate ao sedentarismo, a prática de exercício físico regular vem sendo bastante estimulada como prevenção e reabilitação da saúde, principalmente, pela grande capacidade de adaptação funcional e estrutural que o corpo humano possui ao exercício físico e suas evidências na melhoria em diversas doenças (PEDERSEN; SALTIN, 2015). Entretanto, para que o exercício promova os benefícios esperados, é necessário causar um stress fisiológico advindo do treinamento. No caso de pacientes com hipertensão arterial é importante que esse “estresse” fisiológico seja capaz de aumentar a função cardíaca, a aptidão cardiovascular e o débito cardíaco máximo do paciente. Mas então, qual o tipo de treinamento devemos utilizar para promover essas adaptações cardíacas?

Um método de treinamento que vem ganhando notoriedade na sociedade científica é o HIIT (High Intensity Interval Training). Ele consiste em realizar estímulos de alta intensidade (normalmente acima de 80% da intensidade do VO2 máximo) por intervalos de descanso (ativo ou passivo) (GIBALA; JONES, 2013; MACINNIS; GIBALA, 2017; STORK et al., 2017). Para saber um pouco mais sobre esse método leia “HIIT: conceitos e aplicações”. O HIIT tem se mostrado bastante eficiente em promover melhoras clínicas e funcionais, principalmente em cardiopatas. Esse modelo de exercício possibilita ao paciente cardíaco alcançar altas intensidades que não seriam possíveis no treinamento contínuo moderado, além de ser bem tolerado e seguro para pacientes com DCV (GUIRAUD et al., 2011a; MEYER et al., 2012a; WISLOFF et al., 2007).

Nesse sentido, Molmen-Hansen et al (2012) randomizaram 88 indivíduos hipertensos para o treinamento Intervalado de alta intensidade (85-90% VO2 máx) ou Contínuo de moderada intensidade (60% VO2 máx) durante 12 semanas. Apenas o treinamento intervalado promoveu aumento do volume sistólico, fração de ejeção, aumento do volume diastólico final e da função endotelial. (MOLMEN-HANSEN et al., 2012). Wisløff et al (2007) avaliaram as adaptações cardíacas entre o treinamento Intervalado de Alta Intensidade e contínuo em idosos com insuficiência cardíaca grave, sendo que todos possuíam hipertensão. Os resultados mostraram que somente o treinamento de alta intensidade promoveu aumento do débito cardíaco (↑ 11,5%), volume de ejeção (↑ 17%), fração de ejeção (↑ 35%) e função diastólica (WISLOFF et al., 2007)

Diversos estudos como revisões sistemáticas e meta-análises verificaram que o HIIT foi mais eficiente que o treinamento contínuo moderado, sobre o aumento do condicionamento cardiorrespiratório (VO2pico) e melhora de funções fisiológicas cardioprotetoras em pacientes com doença arterial coronariana, em pacientes com insuficiência cardíaca e em pacientes com doenças cardiometabólicas (MEYER et al., 2012b; PATTYN et al., 2014; RAMOS et al., 2015; WESTON; WISLOFF; COOMBES, 2014).

Uma meta-análise realizada por Ramos et al (2015) avaliou o impacto do treinamento intervalado de alta intensidade e contínuo de moderada intensidade sobre a função vascular, em indivíduos com obesidade, hipertensão, insuficiência cardíaca, síndrome metabólica, doença arterial coronariana, diabetes e mulheres pós-menopausa para. Os resultados mostraram que a Dilatação Mediada pelo Fluxo Sanguíneo (indicador da função vascular) aumentou mais do que o dobro após o treinamento Intervalado (↑ 4,31%) comparado ao contínuo (↑ 2,15%) (RAMOS et al., 2015). Recentemente, uma revisão em hipertensos comparou a eficácia do HIIT versus o MICT (treinamento contínuo de moderada intensidade) sobre a redução na pressão arterial. Um dos principais achados dessa revisão foi que não houve diferença significativa entre os protocolos para redução de P.A, embora apenas o HIIT estivesse associado a melhoras no VO2max (COSTA et al., 2018).

Restaria, portanto, discutir até que ponto o HIIT seria tolerável ou seguro. Nesse sentido, Guiraud e colaboradores compararam uma sessão de HIIT ( 15 s a 100% da potência de pico com recuperação passiva de 15s, durante 20min) com uma sessão de treinamento contínuo moderado ( 28 min a 70% da potência pico) e verificaram que o HIIT com curtos períodos de alta intensidade intercalados com curto períodos de recuperação passiva foi bem tolerado, seguro e preferido por pacientes de DAC estável (GUIRAUD et al., 2011)

Killpatric et al. (2015) avaliaram diferentes modelos de HIIT em jovens, utilizando o mesmo tempo total e com esforço-pausa de 1:1, ou seja, o tempo de esforço corresponde ao tempo de recuperação passiva. Os protocolos envolviam 24 tiros 30s:30s, 12 tiros 60s:60s e 6 tiros 120s:120s. Ao final, se observou que o HIIT com intervalos mais curtos produz valores mais baixos de percepção de esforço e de frequência cardíaca do que realizar menos tiros de maior duração, mesmo que intensidade seja a mesma (KILPATRICK et al., 2015). De modo similar, Meyer et al. (2012) avaliaram 4 protocolos de HIIT (1. 30s a 100% da potência de pico (PPO) com recuperação ativa de 30s a 50% da PPO; 2. 30s a 100% da PPO com recuperação passiva de 30s; 3. 90s a 100% da PPO com recuperação ativa de 90s a 50% da PPO; 4. 90s a 100% da PPO com recuperação passiva de 90s) e sugerem que protocolos com tiros curtos e recuperação passiva geram mais benefícios aos pacientes cardíacos menos condicionados, pois conseguem ficar mais tempo antes da exaustão e, ao final do treino, sustentam mais tempo em altas intensidades. Já protocolos com longos intervalos podem trazer riscos a esse público, embora Wisloff et al. (2007) tenham avaliado um protocolo longo sem eventos adversos.

Desse modo, o HIIT parece ter um papel promissor no tratamento de pacientes hipertensos. No entanto, analisar o tipo de HIIT a se utilizar com pacientes com Hipertensão Arterial é primordial para gerar benefícios no sistema cardiovascular e minimizar os riscos. Com base na literatura, pode-se concluir que esse modelo de treinamento pode ser aplicado na reabilitação cardíaca, desde que dentro de parâmetros adequados de trabalho.

REFERÊNCIAS

COSTA, E. C. et al. Effects of High-Intensity Interval Training Versus Moderate-Intensity Continuous Training On Blood Pressure in Adults with Pre- to Established Hypertension: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Trials. Sports Medicine, 2018.

GIBALA, M. J.; JONES, A. M. Physiological and Performance Adaptations to High-Intensity Interval Training. In: Nestle Nutrition Institute workshop series. [s.l: s.n.]. v. 76p. 51–60.

GUIRAUD, T. et al. Acute Responses to High-Intensity Intermittent Exercise in CHD Patients. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 43, n. 2, p. 211–217, fev. 2011a.

GUIRAUD, T. et al. Acute Responses to High-Intensity Intermittent Exercise in CHD Patients. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 43, n. 2, p. 211–217, fev. 2011b.

KILPATRICK, M. W. et al. Impact of high-intensity interval duration on perceived exertion. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 47, n. 5, p. 1038–1045, maio 2015.

MACINNIS, M. J.; GIBALA, M. J. Physiological adaptations to interval training and the role of exercise intensity. The Journal of Physiology, v. 595, n. 9, p. 2915–2930, 1 maio 2017.

MALACHIAS, M. V. B. et al. 7th Brazilian Guideline of Arterial Hypertension: Chapter 11 – Arterial Hypertension in the elderly. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 107, n. 3 Suppl 3, p. 64–66, 2016a.

MALACHIAS, M. V. B. et al. 7th Brazilian Guideline of Arterial Hypertension: Chapter 10 – Hypertension in Children and Adolescents. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 107, n. 3 Suppl 3, p. 53–63, 2016b.

MEYER, P. et al. High-intensity interval exercise in chronic heart failure: protocol optimization. Journal of cardiac failure, v. 18, n. 2, p. 126–33, fev. 2012a.

MEYER, P. et al. High-Intensity Interval Exercise in Chronic Heart Failure: Protocol Optimization. Journal of Cardiac Failure, v. 18, n. 2, p. 126–133, fev. 2012b.

MOLMEN-HANSEN, H. E. et al. Aerobic interval training reduces blood pressure and improves myocardial function in hypertensive patients. European Journal of Preventive Cardiology, v. 19, n. 2, p. 151–160, 4 abr. 2012.

PATTYN, N. et al. Aerobic Interval Training vs. Moderate Continuous Training in Coronary Artery Disease Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, v. 44, n. 5, p. 687–700, 19 maio 2014.

PEDERSEN, B. K.; SALTIN, B. Exercise as medicine – evidence for prescribing exercise as therapy in 26 different chronic diseases. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 25, p. 1–72, dez. 2015.

RAMOS, J. S. et al. The impact of high-intensity interval training versus moderate-intensity continuous training on vascular function: a systematic review and meta-analysis. Sports medicine (Auckland, N.Z.), v. 45, n. 5, p. 679–92, 15 maio 2015.

STORK, M. J. et al. A scoping review of the psychological responses to interval exercise: is interval exercise a viable alternative to traditional exercise? Health Psychology Review, p. 1–21, 1 jun. 2017.

WESTON, K. S.; WISLOFF, U.; COOMBES, J. S. High-intensity interval training in patients with lifestyle-induced cardiometabolic disease: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 48, n. 16, p. 1227–1234, ago. 2014.

WISLOFF, U. et al. Superior Cardiovascular Effect of Aerobic Interval Training Versus Moderate Continuous Training in Heart Failure Patients: A Randomized Study. Circulation, v. 115, n. 24, p. 3086–3094, 19 jun. 2007.